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domingo, 19 de junho de 2011

Ben Al-Sayi

A CONTAGEM DOS PÃES














Dois homens que viajavam juntos sentaram-se à beira da estrada, para comer. Um tinha cinco pães, e o outro três. Quando colocaram diante de si a comida, passou por ali um homem e os cumprimentou. Eles o convidaram:
— Senta-te para comer connosco.
Ele se sentou e comeu com eles, consumindo-se durante a refeição os oito pães. O homem então se levantou e lhes deu oito moedas de prata, dizendo:
— Recebam este pagamento pela comida que me deram.
E continuou seu caminho.
Os dois companheiros discutiram sobre o modo de dividir entre si as moedas. O dono dos cinco pães dizia:
— Para mim são cinco moedas, e para ti três, pois isto corresponde ao número de pães que cada um de nós tinha.
— Só me conformarei com a divisão das moedas em partes iguais, pois ele recompensou a nossa hospitalidade, que tem o mesmo valor.
Não conseguiram chegar a um acordo. Por isso levaram sua pendência ao Emir Ali ben Ali-Talib, a quem expuseram o ocorrido. O Emir disse então ao dono dos três pães:
— Teu companheiro está sendo muito condescendente, oferecendo-te três moedas, pois o pão dele era mais abundante que o teu. É melhor conformar-te com as três moedas.
— Só me conformarei com o que me cabe por direito.
— Mas, de acordo com o direito, só te cabe uma moeda, e as outras sete ao teu companheiro.
— Ele me ofereceu três moedas e não me conformei, e agora me afirmas que o direito me confere uma só moeda! Explica-me por que só tenho direito a isso, e só então o aceitarei.
Ali-Talib então explicou:
— Eram três pessoas, e não é possível saber quem comeu mais e quem comeu menos. Portanto, temos de supor que todos comeram quantidades iguais. Os pães comidos eram oito, que perfazem vinte e quatro terços. Cada um, portanto, comeu oito terços. Os teus três pães representavam nove terços, e deles comeste oito. O teu companheiro comeu oito terços e tinha quinze. Portanto, dos oito terços que o convidado comeu, sete eram do teu amigo, e apenas um era teu. Daí resulta que te cabe apenas uma moeda, e as outras sete ao teu amigo.
— Agora eu concordo. Nada como o que é justo!

IVAN TURGUÊNIEV

O ENCONTRO

 

 












Um dia de outono, em meados de setembro, eu repousava num bosque de bétulas. O tempo estava in­certo: desde manhã, uma chuva fina alternava com um sol quente. O céu coberto de ligeiras nuvens brancas, clareava por momentos, e deixava entrever uma nesga de azul acariciador como um, belo olhar. Imóvel, eu era todo olhos e ouvidos. Por cima de mim as folhas mal se agitavam, e esse pequeno ruído bastaria para precisar a estação. Não era, com efeito, nem a palpitação álacre e risonha da primavera, nem o doce e longo murmúrio do verão, nem o balbucio tímido e frio do outono, mas uma espécie de gorjeio em surdina. Uma brisa ligeira alisava o cimo das árvores. A floresta molhada mudava a todo momento de aspecto, conforme o sol brilhava ou se escondia. Por vezes, ela se iluminava, e tudo então parecia de súbito sorrir: os troncos das bétulas esparsas ganhavam reflexos de cetim branco; as folhas caídas rebrilhavam como ouro rutilante; os altos penachos dos fetos, já cobertos dessa tinta côr de uva madura, que eles adquirem no outono, ofereciam aos olhos, por toda parte, a confusão transparente dos seus ramos entrela­çados. Depois, tudo se escurecia de novo, as cores vivas se amorteciam; as bétulas se tornavam de um branco pálido, desse branco de neve caída há pouco, que os mornos raios do sol de inverno ainda não tocaram; e sorrateira, furtiva, uma pequena chuva chilreante caía sobre o bosque. A folhagem ainda verde começava entretanto a amarelecer; aqui e ali uma folha nova já havia adquirido tons vermelhos ou acobreados; era pre­ciso vê-la flamejar, quando um raio de sol atravessava, matizando-a, a rede cerrada da ramagem lavada pelas gotas cintilantes. Nenhum pássaro se fazia ouvir: todos estavam abrigados e silenciosos; somente o abelharuco lançava com intermitência o seu grito argentino e zom-beteiro.

Antes de me deter nesse bosque de bétulas, eu tinha atravessado, em companhia do meu cão, uma mata de faias. Confesso não gostar muito dessa árvore, do seu tronco lilás claro e da sua folhagem verde-acinzentada, de aspecto metálico, que se eleva o mais alto possível e se abre nos ares como um leque palpitante; não posso suportar o contínuo balanço dessas feias folhas redondas, desajeitadamente presas aos seus caules intermináveis.. Ela só é bonita em certas tardes de verão, quando, ele-vando-se solitária por cima dos arbustos, se oferece aos raios abrasados do crepúsculo: brilha, então, e rumoreja sob a púrpura dourada que a inunda totalmente, das frondes às raízes. É bonita, também, quando, por um dia de vento sem nuvens, freme e sussurra sobre o fundo azul do céu, cada uma de suas folhas, arrebatadas por esse movimento, parecendo querer arrancar-se, levantar vôo e perder-se ao longe. Mas, em suma, não gosto dessa árvore: razão pela qual, deixando a sua sombra, tinha escolhido para descansar esse pequeno bosque de bétulas, e tinha-me instalado sob uma delas, cujos ramos muito baixos me podiam abrigar da chuva. Enquanto contem­plava o espetáculo que se oferecia ao meu olhar, o sono me envolveu, um sono doce e profundo, que só os caça­dores conhecem.
Não sei quanto tempo durou o meu sono; mas quando abri os olhos, todo o bosque estava inundado de sol; por toda parte, através das folhas palpitantes, o azul resplandecia; uma borrasca tinha afugentado as nuvens; o tempo ficara outra vez sereno; o ar apresentava essa frescura seca e singular que enche o coração de um sentimento de bem-estar e anuncia quase sempre uma bela noite depois de um dia chuvoso.
Ia-me levantar para tentar a sorte mais uma vez, quando "os meus olhos se detiveram sobre uma forma humana imóvel. Era uma jovem camponesa. Sentada a vinte passos de mim, a cabeça pensativamente inclinada, os braços estendidos sobre os joelhos, tinha, numa das mãos semifechadas, um grande ramalhete de flores cam-pestres; cada vez que ela respirava, o ramalhete se elevava docemente sobre o seu colo. Uma blusa muito branca, fechada no pescoço e nos punhos, caía em pregas curtas e suaves sobre o seu talhe. Uma dupla fileira de pérolas amarelas ornavam o seu busto. Era bonita. Os espessos cabelos louros, de um belo matiz cinzento, se separavam em duas grossas trancas, sob um estreito f ichu vermelho, que emoldurava uma fronte de marfim; o queimado dourado, característico das peles delicadas, se destacava no resto do rosto. Eu não conseguia ver-lhe os olhos, que ela conservava baixos, mas distinguia as sobrancelhas delicadas e finas, os longos cílios úmidos; o traço de uma lágrima brilhava ao sol sobre uma das faces e descia até os lábios pálidos. O nariz, um pouco forte, não enfeava o conjunto de seus traços, que eram muito agradáveis: a sua expressão sobretudo me atraía, de tal modo ela revelava doçura, simplicidade, tristeza ingênua, a tristeza de uma criança esmagada por um sofrimento que não chega a compreender. Visivelmente esperava alguém. Um ramo seco estalou no bosque. Ela levantou imediatamente a cabeça e olhou em redor: na sombra transparente, vi brilharem um instante os seus olhos de corça, puros e medrosos. Um longo momento, sem perder de vista o lugar de onde viera o ruído ela escutou: em seguida, voltou a cabeça suspirando, inclinou-se ainda mais e pôs-se lentamente a escolher as suas flores. Os olhos ficaram vermelhos, os lábios tremeram de cortar o coração, uma nova lágrima nasceu sob os grandes cílios, deixando na face um rastro brilhante. Longos minutos transcorreram; a pobre criança não se mexia: por vezes, agitava ansiosamente as mãos, escutava, escutava sempre. Algo mexeu de novo no bosque: ela estremeceu. O ruído se acentuou, se fêz ouvir bem próximo, enfim se percebeu claramente um passo curto e decidido. Ela se soergueu, parecendo intimidada; o seu olhar atento se iluminou de esperança. Saída do mato, uma figura de homem apareceu. Os olhos dela se tornaram fixos, o rosto enrubesceu, um sorriso de satisfação lhe desabrochou nos lábios; quis levantar-se, mas tornou a cair, empali-deceu, perdeu o jeito. Foi só quando ele chegou ao seu lado que ela pôde levantar um olhar temeroso e quase suplicante.
Do meu esconderijo, eu examinava o personagem com curiosidade: para dizer a verdade, êle me causou boa impressão. Devia ser o criado de quarto favorito de um jovem rico. A sua maneira de vestir revelava pretensões a bom gosto, a uma elegante displicência; trazia, abotoado até o pescoço, um paletó curto, côr de bronze, sem dúvida herança do patrão, uma pequena gravata rosa de pontas lilases, e um boné de veludo negro com galão de ouro, enterrado até os olhos. Impla­cável, o colarinho da camisa branca subia até as orelhas, ocultando-lhe as faces; os punhos engomados cobriam-lhe as mãos até os dedos, dedos vermelhos e disformes, ornados de anéis de ouro e prata, guarnecidos de miosótis em turquesas. A sua figura vermelha, sadia, insolente, era dessas que, segundo as minhas observações, exaspe­ram quase sempre os homens e — ai de nós! — agradam freqüentemente as mulheres. Êle se esforçava por dar aos seus traços vulgares uma expressão de desprezo e de tédio: franzia continuadamente os olhos cinzento-pálidos, já quase imperceptíveis, fazia caretas, abaixava os cantos da boca, fingia bocejar e, com uma falsa desenvoltura, retificava as ondas avermelhadas dos seus "caça-noivas" ou então torcia os raros fios louros que se eriçavam por cima de seus lábios carnudos: em resumo, "posava" odiosamente. Os seus manejos começaram desde que percebeu a jovem camponesa: aproximando-se dela, num andar descuidado, permaneceu de pé um momento, levan­tou os ombros, meteu as mãos nos bolsos do paletó e, depois de lhe ter lançado um olhar negligente, sentou-se no chão.
— Há muito tempo que estás aí? — perguntou-lhe com os olhos distraídos e distantes, bocejando e balan­çando uma das pernas.
A moça não encontrou logo forças para lhe res­ponder.
—     ‘Sim, há muito tempo — murmurou enfim, com uma voz indistinta.
—     Qual! (Tirou o boné, passou majestosamente a mão pela espessa cabeleira frisada a ferro, e que começava baixo na testa, lançou em torno um olhar cheio de dignidade e em seguida tornou a pôr o boné na sua preciosa cabeça.) Eu tinha-me esquecido com­pletamente. E depois, chove, além do mais. (Bocejou outra vez). Estou sobrecarregado de serviço, não consi­go fazer tudo… E o patrão ainda se zanga! Nós partimos amanhã…
—     Amanhã? — articulou a pobre moça com um olhar cheio de terror.
—     Sim amanhã… Vamos, vamos, eu te peço — acrescentou êle num tom aborrecido, vendo-a estreme­cer e abaixar a cabeça — eu te peço, Akulina, não chores, tu bem sabes que eu detesto isso. (Franziu o nariz chato). Senão vou-me embora imediatamente. Que bobagem, choramingar!
—     Não, não, eu não estou chorando — disse ela bem depressa, esforçando-se por engolir as lágrimas. — Então é amanhã que o senhor parte — recomeçou, depois de um momento de silêncio. — Só Deus sabe quando nos reveremos, Vítor Alexandrytch!
—     Reveremos, reveremos! Se não fôr no ano que vem, será mais tarde. Eu acho que o patrão tem a intenção de trabalhar em Petersburgo — acrescentou êle num tom negligente e algo fanhoso; a não ser que parta­mos para o estrangeiro.
—     O senhor me esquecerá, Vítor Alexandrytch — suspirou tristemente Akulina.
—     Mas não, por que haveria de esquecer? Eu não te esquecerei. Apenas, não sejas tola, obedece a teu pai.. . É claro que não te esquecerei.
Êle se estendeu e bocejou de novo.
—     Não se esqueça de mim, Vítor Alexandrytch — tornou ela com voz suplicante. — Eu o amei com todas as minhas forças, pelo senhor eu fiz tudo… Diz que obedeça a meu pai, mas como é que o senhor quer que eu faça isso?…
—     Como? — disse êle com voz cavernosa, estendido de costas, as mãos passadas sob a cabeça.
—     Mas seja sensato, Vítor Alexandrytch, o senhor bem sabe…
Ela se calou.
Vítor brincava com a corrente de aço do relógio.
— Tu não és tola, Akulina — disse êle enfim. Não digas bobagens, portanto. Eu quero o teu bem, compreendes? Sim, tu não és tola, não tens nada de bronca, é verdade; tua mãe também nem sempre o foi, o que não impede que tu não tenhas instrução alguma; é por isso que precisas escutar o que te dizem.
— Eu tenho medo, Vítor Alexandrytch!
—     Ora, que bobagem, minha querida, eis uma bela razão para se ter medo!… Que é que tens aí? — acrescentou êle voltando-se para ela. — Flores?
—     Sim, respondeu Akulina, com ar abatido… — Eu colhi tasnas — replicou ela animando-se. — É bom para os bezerros. E isto é cânhamo da água, bom para curar escrófulas. Veja que flor bonita. Nunca vi uma flor tão bonita assim. Aqui estão violetas e miosótis… Colhi isto para o senhor — ajuntou ela apanhando sob as flores amarelas da tasna, um pequeno ramalhete de violetas presas por um laço de relva. — O senhor as quer?
Vítor estendeu uma mão preguiçosa, tomou as flores, cheirou-as com indiferença e se pôs a virá-las entre os dedos, os olhos no céu* o ar digno e sonhador. Akulina o contemplava… e seu olhar triste estava cheio de ternura, de devoção, de submissão, de amor. Com medo de aborrecê-lo, não ousava chorar, mas os seus olhos lhe diziam adeus e se satisfaziam pela última vez; quanto a êle, sempre estendido como um sultão, aceitava a ado­ração com uma condescendência magnânima. Confesso que o seu rosto rubicundo, onde se lia, através de uma despreocupação afetada, o egoísmo satisfeito e fácil, me inspirava uma indignação profunda. Akulina estava deliciosa nesse instante. Toda a sua alma se revelava confiante e apaixonada, voltando-se para êle num impul­so de amor, enquanto êle. .. êle, tendo deixado cair sobre a relva as violetas e tirado do bolso um pedaço de vidro rodeado de bronze, se esforçava, em vão por fixá-lo ao ôljio; franzia inutilmente o sobrolho, contraía a face e mesmo o nariz; o objeto, porém, lhe caía sempre na mão.
— Que é isto? — perguntou Akulina estupefata.
— Uma luneta — respondeu êle cheio de impor­tância.
—     Para que serve?
—     Para se ver melhor.
—     Deixe-me experimentá-la.
Vítor lhe deu a luneta contra a vontade.
— Toma cuidado, não a quebres!
—     Não tenha medo. (Aproximou timidamente o vidro do olho). Não vejo nada — confessou com inge­nuidade.
—     Fecha o olho — respondeu êle com uma voz irritada de chefe.
Ela fechou o olho diante do qual estava o vidro.
— Não esse boba, o outro! — gritou Vítor; e, sem lhe dar tempo para corrigir o engano, tirou-lhe a luneta.
Akulina enrubesceu, riu nervosamente e se afastou.
—     Parece que isso não é feito para nós!
—     Eu o creio realmente!
—     Ah! Vítor Alexandrytch, que vai ser de mim sem o senhor — recomeçou ela de súbito.
Vítor limpou o vidro com a ponta do paletó e reco­locou-o no bolso.
— Sim, não há dúvida — dignou-se êle enfim a responder; — nos primeiros tempos isso te parecerá duro.
Deu-lhe uma palmada nas costas com ar protetor; ela tomou-lhe docemente a mão e beijou-a.
— É claro, tu és uma boa menina — continuou êle com um sorriso satisfeito — mas que se há de fazer? Julga tu mesma; meu patrão e eu não podemos ficar aqui eternamente; o inverno está para chegar; um inver­no no campo é insuportável, tu o sabes bem quanto eu. Em Petersburgo as coisas são diferentes. Lá há mara­vilhas que não serias capaz de imaginar, nem mesmo em sonhos, minha pobre pequena. Que casas! Que ruas! ‘ E a sociedade, a instrução… É extraordinário!
Akulina o escutava com avidez, os lábios entrea-bertos, como uma criança…
—     Aliás — acrescentou êle, virando-se sobre a relva — para que contar tudo isso ? Tu és perfeitamente inca­paz de compreender.
—     Por que razão, Vítor Adexanclrytch? Eu com­preendi, deixe disso, eu compreendi tudo.
— Vejam só!
Akulina baixou a cabeça.
—     Antes, o senhor não me falava assim, Vítor Alexandrytch — disse ela sem levantar os olhos.
—     Antes … antes … — grunhiu êle de mau humor.
Ambos se calaram.
—     Está na hora de partir — disse Vítor, apoiando-se sobre o cotovelo.
—     Espere ainda um pouco — suplicou Akulina.
—     Esperar que?
—     Espere! — repetiu ela.
Vítor se estendeu de novo e se pôs a assobiar. Akuli­na não tirava os olhos dele. Pude perceber que a sua emoção ia num crescendo; um ligeiro tremor lhe agitava os lábios, as faces pálidas se tornaram rosadas…
—     Vítor Alexandrytch — recomeçou ela enfim, com uma voz martelada — eu juro que o que está fazendo não é direito.
—     Que é que não é direito? — perguntou êle levan-tando-se um pouco, a cabeça voltada para ela, de sobrolho carregado.
—     Sim, não é direito, Vítor Alexandrytch. Podia perfeitamente dizer-me uma palavra gentil antes de me abandonar. Pobre abandonada que sou! Só uma peque­na palavra.
—     Que queres tu que eu te diga?
—     Devia sabê-lo melhor do que eu, Vítor Alexan­drytch. O senhor parte sem me dizer uma palavra… Que foi que eu fiz para merecer isso?
—     Como és engraçada! Que é que eu posso fazer?
—     Só uma pequena palavra!
—     É uma verdadeira lengalenga! — resmungou êle, levantando-se.
—     Não se zangue, Vítor Alexandrytch — apressou-se ela a dizer, retendo as lágrimas cóm dificuldade.
—     Eu não me zango, mas tu és uma boba … Eu não posso casar contigo, não é verdade? Então que é que tu queres? Vejamos que queres tu?
Êle a encarou fixamente como se esperasse uma resposta.
— Nada … eu não quero, nada — balbuciou ela mal ousando estender para êle as mãos trêmulas. — Mas se me dissesse uma única palavra gentil antes de me abandonar…
E começou a chorar.
—     Bom, já começa o choro — exclamou Vítor pu­xando o boné sobre os olhos.
—     Eu não quero nada — continuou ela, por entre soluços, escondendo o rosto nas mãos. — Mas que vai ser de mim agora, que vai ser de mim, pobre desgraçada? Casar-me-ão com um homem que eu não amo! Pobre de mim!
—     Continua, continua! — murmurou Vítor batendo com os pés no chão.
—     Se êle me dissesse ao menos uma palavrinha, antes de partir, só uma palavrinha… "Escuta, Akuli­na, eu…"
Mas os soluços impediram-na de continuar; ela se jogou de cara na relva e chorou, chorou desesperada-mente…
Todo o corpo se sacudia; tremores lhe agitavam a nuca. A sua dor, durante muito tempo contida, explodia enfim. Vítor ficou um momento a olhá-la, deu de ombros, afastou-se e partiu a grandes passos.
Alguns instantes transcorreram. Akulina serenou um pouco, levantou a cabeça, pôs-se de pé, passeou o olhar em torno, juntou as mãos; quis correr atrás dele, mas as pernas se recusaram, fazendo-a cair de joelhos… Não me contendo mais, precipitei-me para ela; mas apenas me percebeu, as forças lhe voltaram de súbito: deu um pequeno grito e desapareceu atrás das árvores, abandonando as flores espalhadas no chão.
Permaneci ali um momento; depois, reunindo as violetas, saí do bosque. O sol já estava baixo num céu pálido e puro: seus raios pareciam também pálidos, mais frios, esparzindo-se sem brilho num resplendor suave e transparente. Só meia hora nos separava da noite; no entanto, apenas alguns rubores indecisos anun­ciavam o crepúsculo. Através dos colmos amarelados, ressecados, um vento impetuoso chegava a mim, em raja­das; ao longo do bosque, pequenas folhas encarquilhadas fugiam à sua aproximação, turbilhonando pelo caminho. A parte da floresta que erguia a sua muralha em face da planície fremia inteiramente e brilhava com um res­plendor mortecido. Na relva avermelhada, no menor caule, por toda parte, reluziam inumeráveis filandras.


Detive-me… Uma tristeza me invadiu: através do sorriso álacre, ainda cheio de frescura, da natureza em declínio, percebia-se a angústia do inverno próximo. Num vôo desgracioso e pesado, um corvo circunspecto passou por cima de mim, abaixou a cabeça, para me lançar um olhar de lado, aprumou-se e perdeu-se croci-tando além da floresta. Numerosa revoada de pombos, que chegavam em linha reta dos arredores de uma eira, formou subitamente em coluna, depois se abateu e se dispersou prudentemente sobre o restôlho! prova certa do outono! O rolar de uma carroça vazia se fêz ouvir atrás de uma colina desnuda.
Voltei para casa. Mas a imagem da pobre Akulina me perseguiu durante muitos anos, e conservo ainda as suas violetas, que há muito tempo já murcharam.

sábado, 18 de junho de 2011

ANTÔNIO MARIA














Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá. Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto? Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer: — Estou me sentindo assim, assim, assim... A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os que fazeres do sexo. Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença. E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: "Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country". Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca. Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme. Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta: — Que é que houve? O senhor está mais velho? Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou: — O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu. Tinha pensado que, sem os óculos... Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes. Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

Dalton Trevisan

O VAMPIRO DE CURITIBA









Ai, me dá vontade até de morrer. Veja, a boquinha dela está pedindo beijo - beijo de
virgem é mordida de bicho cabeludo . Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz. É uma que
molha o lábio com a ponta da língua para ficar mais excitante. Por que Deus fez da mulher o
suspiro do moço e o sumidouro do velho? Não é justo para um pecador como eu. Ai, eu morro
só de olhar para ela, imagine então se. Não imagine, arara bêbada. São onze da manhã, não
sobrevivo até à noite. Se fosse me chegando, quem não quer nada - ai, querida, é uma folha seca
ao vento - e encostasse bem devagar na safadinha. Acho que morria: fecho os olhos e me derreto
de gozo. Não quero do mundo mais que duas ou três só para mim. Aqui diante dela, pode que se
encante com o meu bigodinho. Desgraçada! Fez que não me enxergou: eis uma borboleta acima
de minha cabecinha doida. Olha através de mim e lê o cartaz de cinema no muro. Sou eu nuvem
ou folha seca ao vento? Maldita feiticeira, queimá-la viva, em fogo lento. Piedade não tem no
coração negro de ameixa. Não sabe o que é gemer de amor. Bom seria pendurá-la cabeça para
baixo, esvaída em sangue.
Se não quer, por que exibe as graças em vez de esconder? Hei de chupar a carótida de
uma por uma. Até lá enxugo os meus conhaques. Por causa de uma cadelinha como essa que aí
vai rebolando-se inteira. Quieto no meu canto, ela que começou. Ninguém diga sou taradinho.
No fundo de cada filho de família dorme um vampiro - não sinta gosto de sangue. Eunuco, ai
quem me dera. Castrado aos cinco anos. Morda a língua, desgraçado. Um anjo pode -dizer amém!
Muito sofredor ver moça bonita - e são tantas. Perdoe a indiscrição, querida, deixa o recheio do
sonho para as formigas? Ó, você permite, minha flor? Só um pouquinho, um beijinho só. Mais
um, só mais um. Outro mais. Não vai doer, se doer eu caia duro a seus pés. Por Deus do céu não
lhe faço mal - o nome de guerra é Nelsinho, o Delicado.
Olhos velados que suplicam e fogem ao surpreender no óculo o lampejo do crime?
Com elas usar de agradinho e doçura. Ser gentilíssimo. A impaciência é que me perde, a quantas
afugentei com gesto precipitado? Culpa minha não é. Elas fizeram o que sou - oco de pau podre,
onde floresce aranha, cobra, escorpião. Sempre se enfeitando, se pintando, se adorando no
espelhinho da bolsa. Se não é para deixar assanhado um pobre cristão por que é então? Olhe as
filhas da cidade, como elas crescem: não trabalham nem fiam, bem que estão gordinhas. Essa é uma das lascivas que gostam de se coçar. Ouça o risco da unha na meia de seda. Que me
arranhasse o corpo inteiro, vertendo sangue do peito. Aqui jaz Nelsinho, o que se finou de
ataque. Gênio do espelho, existe em Curitiba alguém mais aflito que eu?
Não olhe, infeliz! Não olhe que você está perdido. É das tais que se divertem a seduzir
o adolescente. Toda de preto, meia preta, upa lá lá. Órfã ou viúva? Marido enterrado, o véu
esconde as espinhas que, noite para o dia, irrompem no rosto - o sarampo da viuvez em flor.
Furiosa, recolhe o leiteiro e o padeiro. Muita noite revolve-se na cama de casal, abana-se com
leque recendendo a valeriana. Outra, com a roupa da cozinheira, à caça de soldado pela rua. Ela
está de preto, a quarentena do nojo. Repare na saia curta, distrai-se a repuxá-la no joelho. Ah, o
joelho... Redondinho de curva mais doce que o pêssego maduro. Ai, ser a liga roxa que aperta a
coxa fosforescente de brancura. Ai, o sapato que machuca o pé. E, sapato, ser esmagado pela
dona do pezinho e morrer gemendo. Como um gato!
Veja, parou um carro. Ela vai descer. Colocar-me em posição. Ai, querida, não faça isso:
eu vi tudo. Disfarce, vem o marido, raça de cornudo. Atrai o pobre rapaz que se deite com a
mulher. Contenta-se em espiar ao lado da cama - acho que ficaria inibido. No fundo, herói de
bons sentimentos. Aquele tipo do bar, aconteceu com ele. Esse aí um dos tais? Puxa, que olhar
feroz. Alguns preferem é o rapaz, seria capaz de? Deus me livre, beijar outro homem, ainda mais
de bigode e catinga de cigarro? Na pontinha da língua a mulher filtra o mel que embebeda o
colibri e enraivece o vampiro.
Cedo a casadinha vai às compras. Ah, pintada de ouro, vestida de pluma, pena e
arminho - rasgando com os dentes, deixá-la com os cabelos do corpo. Ó bracinho nu e
rechonchudo - se não quer por que mostra em vez de esconder? -, com uma agulha desenho
tatuagem obscena. Tem piedade, Senhor, são tantas, eu tão sozinho.
Ali vai uma normalista. Uma das tais disfarçada? Se eu desse com o famoso bordel.
Todas de azul e branco - ó mãe do céu! - desfilando com meia preta e liga roxa no salão de
espelhos. Não faça isso, querida, entro em levitação: a força dos vinte unos. Olhe, suspenso nove
centímetros do chão, desferia vôo não fora o lastro da pombinha do amor. Meu Deus, fique
velho depressa. Feche o olho, conte um, dois, três e, ao abri-lo, ancião de barba branca. Não se
iluda, arara bêbada. Nem o patriarca merece confiança, logo mais com a ducha fria, a cantárida, o
anel mágico - conheci cada pai de família!
Atropelado por um carro, se a polícia achasse no bolso esta coleção de retratos?
Linchado como tarado, a vergonha da cidade. Meu padrinho nunca perdoaria: o menino que
marcava com miolo de pão a trilha na floresta. Ora uma foto na revista do dentista. Ora na carta a uma viuvinha de sétimo dia. Imagine » susto, a vergonha fúlgida, as horas de delírio na alcova -
à palavra alcova um nó na garganta.
Toda família tem uma virgem abrasada no quarto. Não me engana, a safadinha: banho
de assento, três ladainhas e vai para a janela, olho arregalado no primeiro varão. Lá envelhece,
cotovelo na almofada, a solteirona na sua tina de formol.
Por que a mão no bolso, querida? Mão cabeluda do lobisomem. Não olhe agora. Cara
feia, está perdido. Tarde demais, já vi a loira: milharal ondulante ao peso das espigas maduras.
Oxigenada, a sobrancelha preta - como não roer unha? Por ti serei maior que o motociclista do
Globo da Morte. Deixa estar, quer bonitão de bigodinho. Ora, bigodinho eu tenho. Não sou
bonito, mas sou simpático, isso não vale nada? Uma vergonha na minha idade. Lá vou eu atrás
dela, quando menino era a bandinha do Tiro Rio Branco.
Desdenhosa, o passo resoluto espirra faísca das pedras. A própria égua de Átila - onde
pisa, a grama já não cresce. No braço não sente a baba do meu olho? Se existe força do
pensamento, na nuca os sete beijos da paixão.
Vai longe. Não cheirou na rosa a cinza do coração de andorinha. A loira, tonta,
abandona-se na mesma hora. Ó morcego, ó andorinha, ó mosca! Mãe do céu, até as moscas
instrumento do prazer - de quantas arranquei as asas? Brado aos céus: como não ter espinha na
cara?
Eu vos desprezo, virgens cruéis. A todas poderia desfrutar - nem uma baixou sobre
mim o olho estrábico de luxúria. Ah, eu bode imundo e chifrudo, rastejariam e beijavam, a cola peluda.
Tão bom, só posso morrer. Calma, rapaz: admirando as pirâmides marchadoras de
Quéops, Quefren e Miquerinos, quem se importa com o sangue dos escravos? Me acuda, ó Deus.
Não a vergonha, Senhor, chorar no meio da rua. Pobre rapaz na danação dos vinte anos.
Carregar vidro de sanguessugas e, na hora do perigo, pregá-las na nuca? Se o cego não vê a
fumaça e não fuma, ó Deus, enterra-me no olho a tua agulha de fogo. Não mais cão sarnento
atormentado pelas pulgas, que dá voltas para morder o rabo. Em despedida - ó curvas, ó delícias -
concede-me a mulherinha que aí vai. Em troca da última fêmea pulo no braseiro - os pés em
carne viva. Ai, vontade de morrer até. A boquinha dela pedindo beijo - beijo de virgem é mordida
de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz






Paul Auster

Mr. Bones















Eram três horas da tarde e o ar estava repleto do som de cortadores de grama, jatos de irrigação de jardim e passarinhos. Longe, em um viaduto invisível ao norte, um cego enxame de veículos pulsava sob a paisagem do subúrbio. Um rádio tocava e uma voz de mulher começou a cantar. Mais perto, alguém soltou uma gargalhada. Parecia o riso de uma criança pequena e, quando Mr. Bones alcançou o fim do bosque em que tinha perambulado durante meia hora, enfiou o focinho entre os ramos e constatou que de fato era esse o caso. Um menino louro, de dois ou três anos, estava sentado no chão cerca de três metros à sua frente, arrancando tufos de grama e lançando-os para cima. Toda vez que um punhado de folhas pousava em sua cabeça, ele deflagrava uma nova sequência de risinhos, batia palmas e se sacudia para cima e para baixo, como se tivesse descoberto a brincadeira mais formidável do mundo. A uns dez metros do garoto, uma menina de óculos andava de um lado a outro com uma boneca nos braços, cantarolando mansamente para o bebê de brinquedo, como se tentasse fazê-lo dormir. Era dificil dizer que idade tinha a menina. Algo entre sete e nove anos, calculou Mr. Bones, mas também podia não ter ainda sete anos, ou haver feito dez anos pouco antes; para não dizer que até podia ter pouco menos de seis, ou então estar prestes a fazer onze anos de idade. À esquerda da menina, uma mulher de bermuda e frente-única brancas se agachava junto a um canteiro de flores vermelhas e amarelas, cuidadosamente escavando ervas daninhas com uma colher de jardinagem. Estava de costas para Mr. Bones e, como usava um chapéu de palha com aba muito larga, seu rosto inteiro estava oculto para ele. Mr. Bones se limitava a observar a curva de sua coluna, as sardas nos braços esguios, a mancha de um joelho branco, mas mesmo com um só desses poucos elementos para se guiar ele podia ter certeza de que ela não era velha, não tinha mais do que vinte e sete ou vinte e oito anos, o que provavelmente queria dizer que era a mãe das duas crianças. Receoso de avançar, Mr. Bones permaneceu onde estava, observou a cena de seu diminuto esconderijo na orla do bosque. Não tinha meios de saber se aquela família era pró-cães ou anticães, não tinha como saber se o tratariam com bondade ou o poriam para correr de suas terras. Mas uma coisa era certa. Ele tinha ido parar em um gramado muito bonito. Enquanto Mr. Bones ficou ali parado olhando para aquela faixa de veludo verde, tratada com extremo capricho, que se estendia diante dele, compreendeu que não era preciso ter muita imaginação para saber como seria gostoso rolar naquela grama e sentir os cheiros que vinham dela.
Antes de poder chegar a uma conclusão quanto ao que fazer em seguida, alguém decidiu por ele. O menino atirou mais dois punhados de grama para cima e, dessa vez, em lugar de cair direto em cima dele como ocorrera antes, uma pequena brisa soprou naquele exato instante e carregou as folhas de grama na direção do bosque. O menino virou a cabeça para observar o vôo das partículas verdes e, enquanto seus olhos varriam o espaço entre os dois, Mr. Bones pôde notar como a expressão de seu rosto mudou de isenção científica e fria para absoluta surpresa. O cão fora descoberto. O menino se levantou de um salto e se atirou na direção dele, guinchando de felicidade, enquanto se bamboleava para a frente em sua inchada fralda de plástico e, naqueles exato instante, com todo o seu futuro repentinamente posto em jogo, Mr. Bones resolveu que era o momento pelo qual esperava. Não só não recuou pari dentro do bosque nem fugiu às pressas, como também, no seu ânimo mais seguro de si e mai.s calmo, adiantou-se cautelosamente sobre o gramado e deixou o menino lançar os braços em tomo dele. "Au-au!", gritou o homenzinho, apertando-o com toda a sua força. "Au-au bonzinho. Meu au-au gozado!"

A menina veio logo depois, correndo através do gramado com a boneca nos braços e chamando a mulher que estava mais atrás. "Olhe só, mamãe", disse ela. "Olhe só o que o Tigre achou". Mesmo enquanto o menino o abraçava, uma onda de alarme atravessou o corpo de Mr. Bones. Onde estava esse tigre de que ela falava - e como um tigre poderia rondar por aqui, onde viviam pessoas? Uma vez, Willy o levara a um zoológico e Mr. Bones conhecia aqueles grandes gatos listrados das selvas. Eram maiores até do que os leões e, se um dia você desse de cara com uma daquelas belezinhas de dentes afiados, podia dar adeus ao futuro. Um tigre deixaria você em pedaços em uns vinte segundos e os bocados de seu corpo que ele por acaso não tivesse vontade de comer serviriam de banquete para os abutres e os vermes.
No entanto Mr. Bones não fugiu. Continuou a deixar seu novo amigo agarrado a ele, com toda a paciência agüentando o impacto da força fenomenal daquele filhote de gente, e torcia para que seus ouvidos o tivessem enganado, que ele tivesse entendido mal o que a menina dissera. A fralda meio frouxa estava encharcada de urina e, misturado com o cheiro forte de amônia, ele pôde detectar vestígios de cenoura, banana e leite. Em seguida a menina se agachou ao lado deles, espiou bem a cara de Mr. Bones com seus magníficos olhos azuis e de repente o mistério se esclareceu. "Tigre", disse ela para o menino. "Solte ele. Você vai sufocar o bichinho".
"Meu amigo", disse Tigre, apertando ainda mais seu abraço, e embora Mr. Bones tivesse ficado contente de descobrir que não estava prestes a ser devorado por uma fera selvagem, a pressão em volta de sua garganta estava agora se tomando forte o bastante para fazê-Io se contorcer. O menino podia não ser um tigre de verdade, mas isso não significava que não fosse perigoso. Ao seu jeito diminuto, ele tinha mais de animal do que Mr. Bones.
Felizmente a mulher chegou naquele instante e segurou o braço do menino, afastando-o de Mr. Bones antes que algo pior acontecesse. "Cuidado, Tigre", disse ela. "A gente não sabe se ele é um cachorro bom ou mau".
"Ah, ele é bom, sim", disse a menina, batendo docemente com a mão em cima da cabeça de Mr. Bones. "É só olhar nos olhos dele que a gente vê logo. Ele é bom de verdade, mãe. Acho até que é o cachorro mais bonzinho que já vi".
'Mr. Bones ficou espantado com aquela afirmação extraordinária da menina, e só para demonstrar como ele era gente boa, que era mesmo um cachorro que não guardava rancor, pôs-se a lamber a cara de Tigre em um grande frenesi de afeto babado. O minúsculo rapazinho soltou uma gargalhada e, embora o impacto da língua de Mr. Bones o fizesse, por fim, perder o equilíbrio, o bagunceiro Tigre achou aquilo a coisa mais gozada que já lhe havia acontecido e continuou a rir debaixo da enxurrada de beijos do cachorro, mesmo depois de tombar no chão, em cima da sua bunda ensopada.
"Bem, pelo menos ele é amigável", disse a mulher para a filha, como se estivesse fendo uma concessão importante. "Mas que sujeira horrível. Acho que nunca vi uma criatura mais imunda, emporcalhada e maltratada do que essa".
"Não tem nada de errado com ele que um pouco de água e sabão não possa resolver", retrucou a menina. "Olhe só para ele, mãe. Não é só bonzinho, também é esperto". A mulher riu. "Como é que você pode saber disso, Alice? Ele não fez nada a não ser lamber a cara do seu irmão".

Alice se pôs de cócoras diante de Mr. Bones e apoiou o queixo nas mãos em concha. "Mostre para a gente como você é esperto, meu garoto", disse ela. "Faça um truque ou alguma coisa, está bem? Você sabe, alguma coisa como rolar no chão, ou ficar de pé nas patas de trás. Mostre para mamãe que eu tenho razão".
Aquelas eram tarefas nem um pouco dificeis para um cão do seu gabarito e Mr. Bones imediatamente tratou de demonstrar o que era capaz de fazer. Primeiro rolou sobre a grama ­não uma vez, mas três -, depois arqueou as costas, ergueu as patas da frente e lentamente ficou de pé sobre as patas traseiras. Fazia anos que não tentava essa acrobacia mas, embora suas juntas doessem e ele cambaleasse mais do que gostaria, conseguiu se manter na posição durante três ou quatro segundos.
"Está vendo só, mamãe? O que foi que eu disse? exclamou Alice. "É o cachorro mais inteligente do mundo".
A mulher, pela primeira vez, agachou-se na altura de Mr. Bones, olhou-o nos olhos e, embora estivesse de óculos escuros e com o chapéu de palha na cabeça, ele pôde ver que era extremamente bonita, com mechas de cabelo louro que desciam em caracóis pela nuca e uma boca farta, expressiva. Alguma coisa estremeceu dentro de Mr. Bones quando ela lhe falou com sua entonação lenta e arrastada dos sulistas e, quando a mulher se pôs a dar tapinhas na sua cabeça com a mão direita, Mr. Bones teve a nítida sensação de que seu coração ia estourar em mil pedaços.
"Você entende o que estou dizendo, não é, cachorrinho?", perguntou ela. "Você é especial, não é? E está cansado, foi maltratado e precisa de alguma coisa para pôr dentro da barriga. É isso, velho amigo, não é? Está perdido e sozinho, e cada pedacinho de você está exausto".
Teria existido algum dia um vira-lata mais sortudo do que Mr. Bones naquela tarde? Sem mais discussão, e sem mais nenhuma necessidade de despertar a simpatia deles ou provar como era uma boa alma, o extenuado animal foi conduzido do quintal para os sagrados aposentos do lar da família. Lá, em uma radiosa cozinha branca, cercada de armários recém ­pintados, lustrosos utensílios de metal e um aspecto de opulência que Mr. Bones jamais pensara que pudesse existir no mundo, ele comeu até se fartar, regalando-se com sobras de rosbife, uma tigela de macarrão com queijo, duas latas de atum e três salsichas cruas, sem falar que também lambeu até o fundo duas tigelas e meia de água, enquanto comia. Bem que quis se conter e lhes mostrar que era um cão de apetites moderados, que não traria problemas para quem cuidasse dele, mas assim que puseram a comida na sua frente, a fome foi simplesmente avassaladora e ele esqueceu o juramento que fizera.
Nada disso pareceu incomodar seus anfitriões. Eram gente de bom coração e  sabiam reconhecer um cão faminto quando viam um e, se Mr. Bones estava esfomeado daquele jeito, eles por sua vez se sentiram absolutamente felizes de lhe dar de comer até que ficasse saciado. Mr. Bones comia em um transe de contentamento, alheio a tudo exceto à comida que ia para sua boca e deslizava pela garganta. Quando a refeição enfim terminou e ele ergueu os olhos em volta para conferir o que as pessoas estavam fazendo, viu que a mulher tinha tirado os óculos escuros e o chapéu. Quando ela se curvou sobre ele para tirar a tigela do chão, Mr. Bones captou um relance de seus olhos cinza-azulados e percebeu que era mesmo uma beleza fora do comum, uma dessas mulheres que faziam parar a respiração dos homens assim que apareciam.

"E aí, cachorrinho", disse ela, correndo a palma da mão no topo da cabeça de Mr. Bones.
"Está se sentindo melhor?"

Mr.Bones emitiu um pequeno arroto de satisfação e depois começou a lamber a mão dela. Tigre, de quem ele se esquecera totalmente a essa altura, veio correndo de repente na sua direção. Atraído pelo som do arroto, que achou muito engraçado, o menino se debruçou bem na cara de Mr. Bones e também soltou um arroto de mentira, do que achou mais graça ainda. Dava a impressão de que a qualquer minuto ia pintar outra truculenta cena de briga de bar mas, antes que a situação fugisse ao controle, sua mãe o arrebatou nos braços e se pôs de pé. Voltou-se para Alice, que estava recostada na pia da cozinha e examinava atentamente Mr. Bones com seus olhos sérios e perscrutadores.
"O que vamos fazer com ele, filha?", perguntou a mulher.
"Acho melhor ficarmos com ele em casa", respondeu Alice.
"Não podemos fazer isso. Na certa ele pertence a alguém. Se ficarmos com ele, seria como um roubo".
"Acho que ele não tem nem um amigo no mundo. Olhe só para ele. Deve ter andado um milhão de quilômetros. Se não ficarmos com ele, vai acabar morrendo. Quer ficar com isso na consciência, mãe?"
A menina tinha mesmo o dom para a coisa, não há dúvida. Sabia exatamente o que dizer e quando dizer e, enquanto Mr. Bones estava ali parado ouvindo as duas conversarem, perguntou-se se Willy não teria subestimado o poder de algumas crianças. Alice podia não ser a chefe da casa, e podia não ter a última palavra, mas suas frases acertavam a verdade em cheio e isso forçosamente tinha de produzir um efeito, mover as coisas em uma direção e não em outra.
"Dê uma olhada na coleira dele, meu anjo", pediu a mulher. "Talvez tenha um nome, um endereço, alguma coisa".

Mr. Bones sabia muito bem que não tinha nada ali, uma vez que Willy nunca havia ligado para coisas como licenças, registros e elegantes chapinhas de metal com o nome gravado. Alice se ajoelhou a seu lado e começou a rodar a coleira em volta do seu pescoço, em busca de sinais de sua identidade ou de seu dono e, como Mr. Bones já sabia qual seria a resposta, aproveitou o momento para desfrutar o calor do hálito da menina, enquanto o ar roçava por trás da sua orelha direita.
"Não mãe", disse ela, afinal. "É só uma coleira bem velha e surrada".
Pela primeira vez no curto tempo em que a conhecia, o cachorro viu a mulher hesitar, e uma certa confusão e tristeza se infiltrou em seus olhos.
"Por mim está bem, Alice", disse ela. "Mas não posso dar o sinal verde antes de falar com seu pai. Você sabe como ele detesta surpresas. Vamos esperar até que ele venha para casa, de noite, e aí todos juntos vamos tomar uma decisão. Está certo?"
"Está bem", respondeu Alice, um pouco murcha ante essa resposta inconclusiva. ''Mas são três contra um, mesmo que ele diga não. E o certo é o certo, não é? A gente tem de ficar com ele, mãe. Vou ficar de joelhos e rezar para Jesus o resto do dia, se isso fizer papai concordar".

"Não precisa fazer isso", disse a mulher. "Se quiser mesmo ajudar, vá abrir a porta e deixe o cachorro ir para fora, para que ele possa fazer suas necessidades. E depois vamos ver se a gente consegue limpá-Io.É o único jeito de a coisa dar certo. Ele tem de causar uma boa impressão logo de saída".

Abriram a porta para Mr. Bones, e foi bem na hora. Depois de três dias de privações, de comer não mais do que um dedinho de restos e de lixo, de fuçar os cantos à cata de qualquer comida indigesta que pudesse encontrar, a fartura nutritiva da refeição que acabara de consumir atingiu seu estômago com a força de um trauma e, com seus sucos digestivos de novo a todo vapor, trabalhando em turnos dobrados e até triplicados para assimilar o ataque recente, era tudo o que podia fazer para não emporcalhar o chão da cozinha e ser banido para um exílio perpétuo. Correu para fora, para trás de uma moita, tentando manter-se fora de vista, mas Alice o seguiu até lá e, para sua eterna vergonha e constrangimento, ficou ali para testemunhar a terrível explosão de um líquido repugnante que rugiu através de seu ralo de esgoto e respingou as folhas embaixo dele. Alice soltou um gemido de nojo quando isso aconteceu e ele se sentiu tão mortificado de desagradá-la que, por um momento ou dois, teve vontade de murchar e morrer. Mas Alice não era uma pessoa comum e, muito embora a essa altura ele já compreendesse isso inteiramente, Mr. Bones nunca imaginaria ser possível que a menina falasse o que falou logo depois. "Pobre cachorrinho", sussurrou Alice, com sua voz desconsolada e cheia de pena. "Você está todo doente, não é?". Foi essa a declaração completa - só duas frases curtas -, mas quando Mr. Bones ouviu Alice pronunciar aquelas palavras, compreendeu que Willy G. Natal não era o único bípede no mundo em que se podia confiar. Ficou claro que existiam outros, e alguns eram bem pequenos.
O resto da tarde transcorreu em uma onda de prazeres. Deram-lhe banho com a mangueira do jardim, encharcando seu pêlo com uma montanha de espuma branca e, enquanto as seis mãos de seus novos amigos esfregavam seu peito, suas costas e sua cabeça, ele nem conseguia lembrar como o dia tinha começado - e que coisa estranha e misteriosa que esse dia tivesse de terminar daquele jeito. Em seguida o enxaguaram e, depois que ele se sacudiu bem para secar e correu em volta do quintal durante alguns minutos, fazendo xixi em várias moitas e árvores ao longo do perímetro do terreno, a mulher sentou-se ao lado dele pelo que pareceu o tempo mais demorado do mundo, à procura de carrapatos em seu corpo. Ela explicou para Alice que o pai a ensinara a fazer isso na Carolina do Norte, quando era pequena, e que o único método garantido era usar as unhas e apertar com força as criaturas pela ponta de suas cabeças. Com os carrapatos presos desse jeito, não se podia simplesmente jogá-los no chão, nem se podia esmagá-los sob os pés. Era preciso queimá-los e, embora a mãe não estivesse de jeito nenhum incentivando Alice a brincar com fósforos, será que ela poderia fazer o favor de ir até a cozinha e pegar a caixa de fósforos Ohio Blue Tips na gaveta de cima, à direita do fogão? Alice fez o que lhe foi pedido e, nos momentos que se seguiram, ela e a mãe vasculharam juntas os pêlos de Mr. Bones, arrancaram uma série de carrapatos inchados de. sangue e incineraram os bandidos em pequenas chamas de calor brilhante e fosforescente. Como não ficar grato por isso? Como não se regozijar por ver esse flagelo agônico de coceiras e feridas retirado de seu corpo? Mr.Bones se sentia tão aliviado com o que estavam fazendo por ele que até deixou passar sem protestos o comentário seguinte de Alice. Ele sabia que o insulto era involuntário, mas isso não quer dizer que não tivesse ficado magoado.
"Não quero deixar você otimista demais", disse a mulher para a menina, "mas talvez não fosse má idéia dar um nome para esse cachorro antes de seu pai chegar do trabalho. Vai ajudar a criar a impressão de que eh~ faz parte da família e pode nos dar uma vantagem psicológica. Entende o que estou dizendo, meu bem?"
"Já sei qual é o nome dele", respondeu Alice. "Eu soube na mesma hora que vi". A menina fez uma pausa para reagrupar seus pensamentos. "Lembra aquele livro que você lia para mim quando eu era pequena? O vermelho com desenhos e todas aquelas histórias de bichos? Tinha um cachorro que era igualzinho a este aqui. Ele salvou um bebê de um prédio em chamas e sabia contar até dez. Lembra, mãe? Eu adorava aquele cachorro. Quando vi o Tigre abraçar este cachorro perto das moitas agora há pouco, foi como um sonho que virou realidade" .
"E qual era o nome dele?"
"Chispinha. O nome dele era Chispinha, o cachorro".
"Tudo bem, então. Vamos chamá-Io de Chispinha, também".
Quando Mr. Bones ouviu a mulher concordar com essa escolha absurda, sentiu-se melindrado. Já fora bastante ruim tentar se habituar ao nome Cal, mas isso era levar as coisas longe demais. Ele tinha sofrido bastante para ainda por cima ser castigado com esse apelido infantilóide e meloso, esse diminutivo forçado, inspirado em algum livreto cheio de ilustrações para pirralhos que estão aprendendo a andar e, mesmo que vivesse ainda um tempo equivalente ao que já vivera, sabia que um cão com seu temperamento melancólico jamais se adaptaria a um nome desses, que iria encolher-se todo sempre que o ouvisse, pelo resto de seus dias.
Antes, porém, que Mr. Bones pudesse se aborrecer de verdade, estourou uma confusão em outra parte do quintal. Nos últimos dez minutos, enquanto Alice e sua mãe catavam parasitas encravados no seu pêlo, Mr. Bones observava Tigre se entreter chutando uma bola de praia no gramado. Toda vez que a bola rolava para longe, ele corria na sua direção a toda velocidade, igual a um jogador de futebol alucinado em perseguição a uma bola duas vezes maior do que ele. O menino era incansável, mas isso não queria dizer que não pudesse tropeçar e dar topadas e, quando o acidente inevitável enfim aconteceu, soltou um berro de dor alto o bastante para expulsar o sol do céu e fazer as nuvens desabarem sobre a Terra. A mulher abandonou seus minuciosos afazeres para cuidar do menino e, enquanto ela o levava para dentro de casa, Alice voltou-se para Mr. Bones e disse: "Esse é o Tigre. Noventa por cento do tempo, ou ele está rindo ou está chorando, e quando não está fazendo nem uma coisa nem outra, você pode ter certeza de que alguma coisa esquisita vai acontecer. Você logo vai se acostumar, Chispinha. Ele só tem dois anos e meio e a gente não pode esperar muito de menininhos. Seu nome verdadeiro é Terry, mas todo mundo o chama de Tigre porque é um tremendo brigão. Meu nome é Alice. Alice Elizabeth Jones. Tenho oito anos e nove meses e acabei de começar a quarta série. Nasci com uns furinhos no coração e quase morri umas duas vezes quando era pequena, menor até do que o Tigre, hoje. Não me lembro de nada disso mas mamãe conta que sobrevivi porque tenho um anjo que mora dentro de mim e esse anjo vai me proteger a vida toda. O nome de mamãe é Polly Jones. Ela se chamava Polly Danforth mas depois casou com papai e mudou o nome para Jones. Meu pai é Richard Jones. Todo mundo o chama de Dick, e a maioria das pessoas diz que eu pareço mais com ele do que com minha mãe. Ele é piloto de avião. Voa da Califórnia para o Texas, para Nova York e para tudo quanto é lugar. Uma vez, antes de Tigre nascer, mamãe e eu fomos a Chicago com ele. Agora estamos morando nesta casa grande. Mudamos para cá faz poucos meses, então é mesmo uma sorte você ter aparecido 'logo agora, Chispinha. A gente tem muito espaço de folga, aqui, e estamos todos bem instalados, e se papai disser que a gente pode ficar com você, então tudo vai ficar perfeito aqui em casa".
Ela tentava fazer Mr.Bones sentir que era bem-vindo, mas o efeito final daquela desconexa apresentação da família foi deixar o cachorro em pânico e virar seu estômago pelo avesso. Seu futuro estava nas mãos de uma pessoa a quem nunca vira e, após ouvir os vários comentários emitidos até então sobre essa pessoa, parecia improvável que a decisão fosse favorável ao cachorro. A força dessa aflição fez Mr. Bones correr de novo para trás da moita e, pela segunda vez em uma hora, seus intestinos o traíram. Tremendo de forma incontrolável enquanto a merda jorrava em cima da terra, ele suplicou ao deus do mundo canino que protegesse o seu pobre corpo doente. Ele entrara na terra prometida, fora cair em um mundo de gramados verdejantes, mulheres bondosas e comida farta, mas se tudo degringolasse e ele viesse a ser expulso daquele lugar, tudo o que pedia é que suas desgraças não se prolongassem além do que conseguia suportar.
Na hora em que o Volvo de Dick estacionou na entrada, Polly já havia dado o jantar dos filhos - hambúrgueres, batatas assadas e ervilhas congeladas, e uma parte disso foi parar na boca de Mr. Bones - e os quatro estavam de novo lá fora, no quintal, regando o jardim, enquanto o final da tarde se convertia no início da noite e o céu se enchia com os primeiros toques de manchas escuras. Mr. Bones entreouvira Polly contar para Alice que o vôo de Nova Orleans devia chegar a Dulles às quatro e quarenta e cinco e se o avião não atrasasse e o tráfego aéreo não estivesse muito intenso, o pai dela estaria em casa às sete horas. Com alguns minutos a mais ou a menos, foi justamente nesse horário que Dick Iones chegou. Tinha ficado fora por três dias e, quando os filhos escutaram o barulho do carro se aproximando, os dois correram aos gritos pelo quintal e sumiram atrás do canto da casa. PolIy não fez nenhum movimento para ir atrás deles. Com toda a calma, continuou a regar suas plantas e flores e Mr. Bones ficou firme a seu lado, disposto a não deixar que ela sumisse de sua vista. Ele sabia que agora toda esperança chegara ao fim, mas se alguém podia salvá-Io do que estava prestes a acontecer, era ela.
Momentos depois, o chefe da casa veio caminhando para o quintal com Tigre num braço e Alice agarrada ao outro e, como vestia o uniforme de piloto (calça azul-escura, camisa azul­clara enfeitada com dragonas e emblemas), Mr. Bones confundiu-o com um policial. Foi uma associação automática e, com o pavor de uma vida inteira embutido nessa reação, ele não pôde deixar de se retrair quando Dick se aproximou, embora pudesse ver com os próprios olhos que o homem ria e parecia verdadeiramente feliz de estar de novo com os filhos. Antes que Mr. Bones pudesse pôr em ordem essa barafunda de dúvidas e impressões conflitantes, foi arrastado de roldão para o drama que se desenrolava naquele momento e, a partir de então, tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo. Alice começou a falar com o pai a respeito do cachorro assim que ele pôs os pés para fora do carro, e ainda falava do mesmo assunto quando o pai entrou no quintal e cumprimentou a esposa (um beijo rápido na bochecha) e, quanto mais ela o assediava e se desmanchava em elogios a respeito da criatura maravilhosa que tinham encontrado, mais agitado ficava seu irmãozinho. Gritando "Chispinha" com toda a força dos pulmões, Tigre libertou-se do abraço do pai, correu para Mr. Bones e atirou os braços em volta do seu pescoço. Para não ficar atrás do seu minúsculo irmão, Alice também veio participar da cena, com uma grande e histriônica demonstração de afeto pelo cão, enquanto o atacava com repetidos abraços e beijos melodramáticos e, com as duas crianças de repente o massacrando desse jeito e recobrando suas orelhas com as mãos, o peito e a cara, Mr. Bones perdeu três quartos do que os adultos falavam. A única coisa que ouviu com alguma clareza foi a primeira declaração de Dick: "Então este é o famoso cachorro, hein? Para mim, parece um coitado de um vira-lata".
Depois disso, só pôde tentar adivinhar o que acontecia, na verdade. Bones viu Polly torcer o bico da mangueira, o que fez cessar o jorro de água, e então ela disse algo para Dick. A maior parte foi inaudível, mas pelas poucas palavras e expressões que Mr. Bones conseguiu captar, entendeu que ela defendia sua causa: "apareceu no quintal esta tarde", "inteligente", "as crianças acham ... ", e então, depois que Dick falou alguma coisa para ela, "não tenho a mínima idéia, talvez tenha fugido do circo". Parecia bastante animador, mas bem na hora em que ele conseguiu libertar sua orelha do aperto de Tigre a fim de escutar um pouco mais, Polly largou a mangueira no chão e andou com Dick rumo à casa. Pararam perto da porta dos fundos e continuaram a conversa ali. Mr. Bones tinha certeza de que coisas importantes estavam sendo resolvidas, mas embora os lábios se movessem, não conseguia mais ouvir o que diziam.
Pôde ver, porém, que Dick olhava para ele, gesticulava em sua direção· de vez em quando, com um vago movimento de varrer para longe com a mão, enquanto prosseguia a troca de idéias com Polly, e Mr. Bones, que estava ficando um pouco chateado com a espalhafatosa demonstração de amor que Tigre e Alice haviam iniciado, perguntou-se se nao seria uma boa idéia tomar ele mesmo uma iniciativa e fazer algo em seu próprio favor. Em vez de ficar ali à toa enquanto seu futuro pendia na balança, por que não tentar impressionar Dick com alguma façanha canina arrojada, alguma elegante gracinha de cachorro, que fizesse virar a maré a seu favor? Era verdade que Mr. Bones estava exausto, e era verdade que sua barriga ainda doía e suas pernas sentiam-se diabolicamente fracas, mas não deixou nada disso o impedir de saltar e disparar para o extremo oposto do quintal. Dando um grito esganiçado de surpresa, Tigre e Alice correram na direção dele, e na hora em que iam pegá-lo, pulou de novo para longe dos dois, disparando de repente na direção de onde tinha vindo. Outra vez foram atrás de Mr. Bones e mais uma vez ele os esperou até que quase o tivessem nas mãos, para só então escapar de um salto. Ele não dava essas arrancadas fazia séculos, e embora soubesse que estava forçando demais e que depois teria de pagar o preço desse empenho todo, continuou a fazê-lo, orgulhoso de se torturar pelo bem de uma causa nobre. Após três ou quatro corridas através do gramado, parou no meio do quintal e brincou com eles de dribles e esquivas - a versão canina da brincadeira de pegar -, e ainda que mal conseguisse respirar, não quis parar até que as crianças se dessem por venci das e tombassem no chão, de cansaço, à sua frente.
Enquanto isso, o sol começava a se pôr. O céu estava riscado por faixas de nuvens rosadas e o ar se tomara mais frio. Agora que o corre-corre havia terminado, parecia que Dick e Polly estavam prontos para anunciar seu veredicto. Enquanto Mr. Bones jazia arfante sobre a grama ao lado das duas crianças, viu os adultos darem as costas para a casa e começarem a andar de volta para o quintal e, embora não estivesse nem um pouco claro para ele se o seu desvairado acesso de vitalidade produzira algum efeito na decisão final, Mr. Bones se animou com o pequeno sorriso satisfeito que vincava as margens do rosto de Polly.
"Papai diz que Chispinha pode ficar", disse ela, e enquanto Alice pulava do chão e abraçava o pai, e Polly se abaixava e tomava nos braços o semi-adormecido Tigre, começava um novo capítulo na vida de Mr. Bones.
Antes, porém, que eles pudessem abrir a champanha e comemorar, Dick fez questão de meter a colher com alguns pontos adicionais - a notinha em letras miúdas no rodapé no contrato, digamos assim. Não é que não quisesse ver todo mundo feliz, disse Dick, mas por enquanto deviam entender que estavam com o cão em casa apenas em "fase de experiência" e, a menos que certas condições fossem satisfeitas, o acordo seria rompido. Primeiro: em nenhuma circunstância o cachorro deveria entrar em casa. Segundo: teria de ser levado ao veterinário para um exame completo. Se não estivesse com uma saúde razoável, teria de ir embora.Terceiro: tão logo fosse possível, marcariam um encontro com um tratador de cães profissional. O animal precisava aparar os pêlos, passar xampu e cuidar das unhas, bem como se submeter a uma completa varredura de carrapatos, piolhos e pulgas. Quarto: teria de ser castrado. E quinto: Alice ficaria responsável por alimentá-lo e mudar a água de sua tigela ­sem nenhum aumento na mesada pela prestação desses serviços.
Mr. Bones não tinha a menor idéia do que significava a palavra "castrado", mas compreendeu tudo o mais e, no conjunto, não pareceu tão mau assim, exceto talvez o primeiro ponto, não ter permissão para entrar em casa, pois ele não conseguia entender como um cão poderia tornar-se parte da vida doméstica de uma família se não tinha o direito de entrar na casa dessa família. Alice devia estar refletindo sobre a mesma coisa pois, tão logo o pai chegou ao último item da lista, ela o interrompeu com uma pergunta: "O que vai aconteder quando chegar o inverno?", indagou. " A gente não pode deixar ele aqui fora no frio, não é papai?".
"Claro que não", disse Dick. "Vamos deixá-lo na garagem e, se lá ainda estiver frio, vamos deixar que entre e fique no porão. eu só não quero que espalhe pêlos por todos os móveis, só isso. Mas vamos deixar tudo confortável para ele, aqui fora, não se preocupe. Vamos arranjar uma casa de cachorro de primeira clase, e vou erguer um cercado, amarrando uma tela de arame entre aquelas duas árvores ali adiante. Vai ter espaço de sobra para dar suas piruetas lá dentro e, depois que se acostumar, vai viver feliz feito um passarinho. Não tenha pena dele, Alice. Não é uma pessoa, é um cão, e cães não fazem perguntas. Eles se viram com o que tem". Com esta afirmação categórica, Dick pôs a mão na cabeça de Mr. Bones e lhe deu um apetão firme e viril, como para provar que não era um sujeito tão difícil afinal de contas. "Não está bem assim, meu chapa?", disse ele. "Você não vai reclamar, vai? Sabe que teve uma tremenda sorte de vir parar aqui e a última coisa que você vai querer, agora, é fazer a canoa virar".
Era mesmo um sujeito de muito expediente, aquele Dick, e embora o dia seguinte fosse domingo - o que significava que tanto o tratador quanto o veterinário não trabalhavam -, ele levantou cedo, foi até o depósito de madeiras na camionete de Poly e passou a manhã e a tarde inteiras montando uma casa de cachorro pré-fabricada (modelo de luxe, que incluia instruções para montar) e improvisando um cercado no quintal. Claramente pertencia a essa categoria de homens que se sentiam mais felizes arrastando escadas e martelando pregos em tábuas do que batendo papo com a esposa e os filhos. dick era um homem de ação, um soldado em guerra contra o ócio, e enquanto Mr. Bones o observava trabalhando para valer com sua bermuda cáqui e via o suor brilhando na sua testa, não podia deixar de interpretar toda essa atividade como um bom sinal. Significava que aquela história de "fase de experiência" de ontem não tinha sido mais do que um blefe. Dick havia desembolsado mais de duzentos dólares por aquele equipamento e ferramentas novas. Tinha dado duro no calor a maior parte do dia e não ia deixar seu trabalho nem seu dinheiro serem derperdiçados. A essa altura, ele já havia, por assim dizer, entrado na água e, até onde Mr. Bones podia entender, a questão dai para a frente era nadar ou afundar.