literatura

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Mário Benedetti

Amor de tarde


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Porque cantamos


Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.


Intimidade



Sonhamos juntos 
juntos despertamos 
o tempo faz e desfaz 
entretanto 
não lhe importam teu sonho 
nem meu sonho 
somos trôpegos 
ou demasiados cautelosos 
pensamos que não cai 
essa gaivota 
cremos que é eterno 
este conjuro 
que a batalha é nossa 
ou de nenhum 
juntos vivemos 
sucumbimos juntos 
porém essa destruição 
é uma brincadeira 
um detalhe uma rajada 
um vestígio 
um abrir-se e fechar-se 
o paraíso 
já nossa intimidade 
é tão imensa 
que a morte a esconde 
em seu vazio 
quero que me relates 
o duelo que te cala 
por minha parte te ofereço 
minha última confiança 
estás sozinha 
estou sozinho 
porém às vezes 
pode a solidão 
ser 
uma chama 

Um comentário:

Angela Cunha disse...

adorei o estilo...

bjs