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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Rumi

 Sou o Escravo que Libertou o Amo
 o discípulo que instruiu o mestre.
Sou a alma que ontem nasceu no mundo
e no mesmo instante criou este mundo vetusto.
Sou a cera orgulhosa que fez o ferro virar aço.
Passei ungüento nos olhos dos cegos
e ensinei homens de curto entendimento.
Sou a nuvem negra que trouxe alegria
da noite de dor ao dia de festa.
Sou a terra milagrosa
que pelo fogo do amo se elevou
e tocou a mente do céu.
Noite passada, o rei não dormiu,
contente de saber que eu, o escravo, dele me lembrei.
Não me culpes se sou escandaloso e lavrei justiça,
foste tu que me embriagaste.
Silêncio, que o espelho se desgasta;
quando soprei sobre ele,
protestou contra mim." 



Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do Sol.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.

Inicialmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo um punhado de pó,
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo.
Depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.
 Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.
 
O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.
Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.
Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.

  
Aqueles que não sentem este Amor,
Puxando-os como um rio,
aqueles que não bebem o amanhecer
como um copo de água pura
ou recebem o entardecer como almoço,
aqueles que não querem mudar,

Deixem eles dormirem.

Este Amor é além do estudo da teologia,
aquela velha enganação e hipocrisia.
Se você quer melhorar sua mente daquela forma,

Continue dormindo.

Eu deixei o meu cérebro.
Eu rasguei minha roupa em pedaços
e joguei-a fora.

Se você não está completamente nu,
então se enrole num lindo roupão de palavras

E durma
 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Al-Mu`Tamid Rei e Poeta

A noite lavava as sombras
Das suas pálpebras com a aurora.
Ligeira corria a brisa.
E bebemos! Um vinho velho cor de rubi,
Denso de aroma e de corpo suave


 
 
A BATALHA FINAL
 
Eu tinha mal contidas lágrimas
e o coração destroçado.
e me diziam: “a rendição convém-te! rende-te!”
mas o pior veneno seria melhor que a rendição.
os inimigos a pátria me roubavam
e o povo fazia-me sentir o gosto da traição.
porém, meu coração ainda estava no meu peito
e o corpo jamais entrega o coração.
tudo me levaram menos o carácter nobre,
a nobreza pode alguém arrebatá-la?
no dia da batalha eu não quis couraça,
e saí para a luta sem proteção para o peito.
mortifiquei a alma, julgando que a perdia.
a rodos o sangue então corria.
mas nem assim a morte quis chegar
p’ra me poupar ignomínia e submissão,
lancei-me na batalha julgando não voltar.
assim meus avós, assim sou eu:
quem sabe da raiz o ramo conheceu.


Minh’alma quer-te com paixão
Ainda que haja nisso uma tortura
E alegre vai na ânsia da procura.
Que estranho ser difícil nossa ligação
Se os desejos d’ambos concordaram!
Que quereria mais meu coração,
Ao desejoso te buscar em vão,
Se meus olhos te viram e amaram?
Allah bem sabe que não há razão
De vir aqui senão para te ver.
Que o vigia não nos possa achar
Se o nosso reencontro acontecer
P’ra os teus lábios doces eu provar.
Folgarei no jardim da tua face,
Beberei desses olhos o langor,
E mesmo que um terno ramo imitasse
O teu talhe grácil, sedutor,
Valerias mais que o imitador.
Não te ocultes, oh jardim secreto:
Quero colher meu fruto predileto!


Ao passar junto da vide
Ela arrebatou-me o manto,
E logo lhe perguntei:
Porque me detestas tanto?
Ao que ela me respondeu:
Porque é que passas, ó rei,
Sem me dares a saudação?
Não basta beberes-me o sangue
Que te aquece o coração?

O teu aroma tomou-me conta do olfacto
E o teu rosto lindo preencheu meus olhos:
És minha mesmo depois de me deixares
E só por isso me chamam poderoso.

 Generosidade!
Generosidade! És mais doce
Que vitória sentir no coração.
Contigo é que se alcança a posse
Daquilo que não alcança nossa mão.

És mais doce que o canto da amada
Ao dar-te de beber na alvorada.

Ó rosto solar do crepúsculo e da alva!
Tenho saudades do tempo generoso
Como a terra seca do orvalho dadivoso.
Minha mão desprezou o copo enfadada
Meu ouvido não quis ouvir a melodia
Até regressar minha beneficiência
E me fazer louvar como eu queria.

Conquistaí-me com sedas a indulgência!
E darei meu oiro aos que têm carência
!
 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

TORQUATO NETO

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou

agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou

presente
desferrolhado indecente
 

feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou

vidente
e vivo tranquilamente

todas as horas do fim.

Let’s Play That


quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that


Desejo


 Mas...
se eupudesseum dia
com as mãos o sol pegar;
a luaapertarentre meus pés
e
trêmulo de prazer
em plena Via Láctea, todos os astros
[retercomigo,
um gozo frenético e sem fim,
apesar de tanta infelicidade
eu chegaria a ter pena de mim mesmo
pois, indiscutivelmente,
eu estaria louco,
demente!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Geraldo Carneiro

a coisa bela


toda beleza é sempre uma alegria.
eu sei, não foi bem isso que o John Keats
                                                             /disse,
mas cada língua escolhe as afeições
e imperfeições que lhe compete ser,
o ser da língua sendo o seu amar
o mar com cada qual sargaço seu
o espaço que se sonha na amplidão
do que se quer mais vasto.
um sonho vai fundando um outro sonho
até talvez um horizonte, ou não.
a palavra inaugura uma alegria
voa     auspicia     pássara
o que passou, o que ainda vai passar
o que se funda agora
e na hora da nossa vida-morte:
o resto só será palavra-além. 



nevermore

fizemos piqueniques em Pasárgada
tratamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões d'além mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso 
 
 

predestino

sou um dos príncipes do despudor
por procurar até no desespero
ser fiel aos deuses nos quais acredito,
por não ter medo dos nomes malditos,
dos mitos, das palavras furta-flor.
vivo surfando em busca do presente
numa voracidade nordestina
que descobri por predestinação.
não sei qual é a nação dos meus zumbis.
não sei por que palmeiras e palmares
cheguei aqui atravessando mares
amares sempre nunca navegados.
sou a ponte entre a véspera e o porvir
as armas e barões assinalados
os pensamentos idos e vividos
e as praias improváveis que virão. 



Ferreira Gullar

 




Os Mortos






  






os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
       certas sinfonias
                 algum bater de portas,
       ventanias

           Ausentes
           de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
           se de fato
           quando vivos
           acharam a mesma graça 













Homem Comum

Sou um homem comum
     de carne e de memória
     de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
     pânica
     feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
     cessar.

Sou como você
     feito de coisas lembradas
     e esquecidas
     rostos e
     mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
     em Pastos-Bons
     defuntas alegrias flores passarinhos
     facho de tarde luminosa
     nomes que já nem sei
     bandejas bandeiras bananeiras
             tudo
     misturado
        essa lenha perfumada
     que se acende
     e me faz caminhar
Sou um homem comum
     brasileiro, maior, casado, reservista,
     e não vejo na vida, amigo,
     nenhum sentido, senão
     lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
     Quero, por isso, falar com você,
     de homem para homem,
     apoiar-me em você
     oferecer-lhe o meu braço
        que o tempo é pouco
        e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
     Homem comum, igual
     a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
     A sombra do latifúndio
     mancha a paisagem
     turva as águas do mar
     e a infância nos volta
     à boca, amarga,
     suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
     comuns
     e podemos formar uma muralha
     com nossos corpos de sonho e margaridas. 






















MAU DESPERTAR
Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum
Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
        tenho
        riscado
de hematomas
Zonzo lavo
       na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Georg Trakl

Crepúsculo do Inverno
Zeus escuros de metal
Nas vermelhas revoadas
passam gralhas esfaimadas
sobre um parque fantasmal

Rompe um raio glacial
ante pragas infernais
giram gralhas vesperais;
sete pousam no total.
Na carniça desigual,
bicos ceifam em segredo.
Casa mudas metem medo;
brilha a sala teatral.
Ponte, igrejas, hospital
hórridos na luz exangue.
Linhos grávidos de sangue
 incham velas no canal.






















Vento Quente

 amento cego no vento, dias lunares de inverno,
Infância, os passos se perdem discretos em negra sebe,
Longo toque noturno.
Discreta vem a noite branca,
Transforma em sonhos purpúreos tormento e dor
Da vida pedregosa,
Para que nunca o espinho deixe o corpo em decomposição.
Profunda em sono suspira a alma angustiada,
Profundo o vento em árvores destruídas,
E a figura de lamento da mãe
Vagueia pela floresta solitária
Desse luto silente; noites
Repletas de lágrimas, de anjos de fogo.
Prateado, espatifa-se contra a parede nua um esqueleto de criança.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

WALT WHITMAN

Esta é a Forma Fêmea

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Henry Miller

Lado a lado com a espécie humana corre outra raça de seres, os inumanos, a raça de artistas que, incitados por desconhecidos impulsos, tomam a massa sem vida da humanidade e, pela febre e pelo fermento com que a impregnam, transformam a massa úmida em pão, e pão em vinho, e o vinho em canção. Do composto morto e da escória inerte criam uma canção que contagia. Vejo esta outra raça de indivíduos esquadrinhando o universo, virando tudo de cabeça pra baixo, e os pés sempre se movendo em sangue e lágrima, as mãos sempre vazias, sempre se estendendo na tentativa de agarrar o além, o deus inatingível: matando tudo ao seu alcance a fim de acalmar o monstro que lhe corrói as entranhas. (...) E tudo quanto fique aquém desse aterrorizador espetáculo, tudo quanto seja menos sobressaltante, menos terrificante, menos louco, menos delirante, menos contagiante, não é arte. Esse resto é falsificação. Esse resto é humano. Pertence a vida e à ausência de vida.

Sylvia Plath

"Amo as pessoas. Todas elas. Amo-as, creio, como um colecionador de selos ama sua coleção. Cada história, cada incidente, cada fragmento de conversa é matéria-prima para mim. Meu amor não é impessoal, nem tampouco inteiramente subjetivo. Gostaria de ser qualquer um, aleijado, moribundo, puta, e depois retornar para escrever sobre os meus pensamentos, minhas emoções enquanto fui aquela pessoa. Mas não sou onisciente. Tenho de viver a minha vida, ela é a única que terei. E você não pode considerar a própria vida com curiosidade objetiva o tempo todo..."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

domingo, 19 de junho de 2011

Luís Fernando Verissímo

DESABAFO DE UM BOM MARIDO













Minha esposa e eu sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica.
Então ela disse: ‘Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar’.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.

Eu me casei com a ‘Sra. Certa’. Só não sabia que o primeiro nome dela era ‘Sempre’.
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: ‘O que tem na TV?’ E eu disse ‘Poeira’.
No começo Deus criou o mundo e descansou.
Então, Ele criou o homem e descansou.
Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso.

Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes, o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.
Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.
Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura. Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa. Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei.

‘- Quando você terminar de cortar a grama,’ eu disse, ‘você pode também varrer a calçada.’

Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida’.

‘O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido…’

MOTEL 
 
















Mirtes não se aguentou e contou para a Lurdes:
- Viram o teu marido entrando num motel.
A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio. Depois pediu detalhes.
- Quando? Onde? Com quem?
- Ontem. No Discretíssimu’s.
- Com quem? Com quem?
- Isso eu não sei.
- Mas como? Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?
- Não sei, Lu.
- O Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.
Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo. E contou por quê.
- Mas que historia é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel. Era você!
- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir. Discretíssimu’s! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.
- Pois então?
- Pois então que eu tenho que deixar você. Não vê? É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.
- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!
- Mas elas não sabem disso!
- Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?
- Vou!
Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou. Estava sombrio.
- Acabo de receber um telefonema – disse. – Era o Dico.
- O que ele queria?
- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.
- O quê?
- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu’s ontem, com um homem.
- O homem era você!
- Eu sei, mas eu não fui identificado.
- Você não disse que era você?
- O que? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?
- E então?
- Desculpe, Lurdes, mas…
- O quê?
- Vou ter que te dar um tiro…

Lima Barreto

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS

 

 

 

 

 

 

 

 

 Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver.
Houve mesmo uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo: - Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!
- Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!
- Cansa-se; mas, não é isso que me admiro, O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
- Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês?
- Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
- Não, antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
- Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
- Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte:
"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc."
Ora, disse cá comigo, está aí urna colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os cadáveres. lnsensiveImente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Enciclopédia, letra j, a fim de consultar o artigo relativo à Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonde, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, e sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.
Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia, para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu abecê malaio e com tanto afinco levei o propósito, que, de manhã, o sabia perfeitamente.
Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:
- Sr. Castelo, quando salda a sua conta?
- Respondi-lhe então, eu, com a mais encantadora esperança:
- Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor do javanês, e... Por aí o homem interrompeu-me:
- Que diabo vem ser isso, Sr. Castelo?
Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:
- É língua que se fala lá pelas bandas de Timor. Sabe onde é?
Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:
- Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Sr. Castelo?
Animado com esta saída feliz que deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à Biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter-me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao Dr. Manuel Feliciano Soares Albernaz, barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, e também perguntar e responder: - como está o senhor? - e duas ou três regras de gramática, ilustrando todo esse saber com vinte palavras de léxico.
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza.
Era uma casa enorme, que parecia estar deserta; estava maltratada, mas não sei por que me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas.
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.
Na sala, havia urra galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarro de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com um lenço de Alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.
- Eu sou, avancei, o professor de javanês que o senhor disse precisar.
- Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui do Rio?
- Não, sou de Canavieiras.
- Como? fez ele. Fale um pouco mais alto, que sou surdo.
- Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu.
- Onde fez os seus estudos?
- Em São Salvador.
- E onde aprendeu o javanês? - indagou ele, com aquela teimosia peculiar dos velhos.
Não contava com essa pergunta mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.
- E ele acreditou? E o físico? - perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado. - Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos, e a minha pele basanée, podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio. Tu sabes que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaxes, guanchos, até gôdos. Ë uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.
- Bem, fez o meu amigo, continua.
- O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:
- Então está disposto a ensinar-me javanês?
A resposta saiu-me sem querer:
- Pois não.
- O senhor há de ficar admirado, aduziu o barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade queira aprender qualquer coisa, mas...
- Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...
- O que eu quero, meu caro senhor...
- Castelo, adiantei eu.
- O que eu quero, meu caro Sr. Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que sou neto do conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer, meu avô chamou meu pai, e disse-lhe: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai, - continuou o velho barão, - não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tantos desgostos, tantas desgraças tem caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias enunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro que preciso entender o javanês. Eis ai.
Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não sepodia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afina! contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.
Dentro em pouco dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão inteligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o senhor barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria; aprendia e desaprendia.
A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única! Ele não se cansava de repetir: "Ë um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!"
O marido de D. Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nade se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.
Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e as impingi ao velhote como sendo de crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos!
Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava--me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a causa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo de que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou uma carta ao visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo.
- Qual! retrucava ele. Vá menino; você sabe javanês!
Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou o chefe de secção:
- Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!
Os chefes de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam:
- Então, sabe javanês? É difícil' Não há quem o saiba aqui!
O tal amanuense que me olhou com ódio, acudiu então:
- É verdade, mas eu sei canaque. O Sr. sabe?
Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.
A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o pincenê no nariz e perguntou:
- Então, sabe javanês?
Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do pai javanês.
- Bem, disse-me o ministro, o Sr. não deve ir para a diplomacia: o seu físico não se presta. O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bale onde vai representar o Brasil no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Muller, e outros!
Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente, e fez-me uma deixa no testamento.
Pus-me com afã no estudo das línguas malaio-polinésias; mas não havia meio!
Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceeding of the English, Oceanic Association, Archivo GlottoIogico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês". Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de aprenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi no Jornal do Comércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa, antiga e moderna.
- Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A policia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - uff!
Chegou, enfim, a época do Congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na seção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bale o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela seção. Não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano-brasileiro, me estava naturalmente indicada a seção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.
Acabado o Congresso, fiz publicar extratos do Mensageiro de Bale em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo senador Gorot. Custou -me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom barão de Jacuecanga.
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharaoux, recebi urna ovação de todas as classes sociais e o presidente da República, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive sete anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.
- É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
- Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?
- Quê?
- Bacteriologista eminente. Vamos?
- Vamos.

Herman Hesse

Lobos













Nunca houvera um inverno tão trio e comprido nas montanhas francesas. Havia semanas que o ar estava límpido, áspero e frio. Durante o dia, os grandes e inclinados mantos de neve, de um branco baço, estendiam-se infinitamente por baixo do céu azul ofuscante; de noite, a Lua passava, pequena e clara, por cima deles, uma Lua terrível a indicar geada com o seu 5 brilho amarelo, cuja luz forte se tomava azul e sombria em cima da neve, assemelhando-se à própria geada. Os homens evitavam todos os caminhos e particularmente as altitudes; indolentes, soltavam injúrias nas suas cabanas da aldeia cujas janelas, vermelhas à noite, pareciam, ao lado da luz azul da Lua, revestidas de uma opacidade fumarenta e rapidamente se apagavam.
Era um tempo difícil para os animais da região. Os mais pequenos morriam de frio, aos imgoin tes, e mesmo os pássaros sucumbiam à geada, os seus cadáveres franzinos eram presa de lobos e açores. Poucas famílias de lobos ali viviam, e a necessidade impeliu-as a formar sociedades mais firmes. De dia saíam individualmente. Aqui e acolá passava um sobre a neve, magro, esfomeado e alerta, silencioso e acanhado, como uni fantasma. A sua sombra estreita deslizava a seu lado, sobre a superfície da neve. Farejando, esticava o focinho bicudo na direcção do vento, e, por vezes, soltava um uivo seco e angustiado. Mas à noite saíam todos em conjunto e circundavam as aldeias soltando gritos roucos. Ali, o gado e as aves encontravam-se bem guardados e, atrás das fortes portadas, as espingardas estavam em posição. Só muito raramente lhes calhava uma pequena presa como um cão, e dois da sua alcateia já tinham sido mortos a tiro.
A geada ainda perdurava. Muitas vezes os lobos permaneciam aninhados, silenciosa mente, aquecendo-se uns aos outros e perscrutando angustiados o ermo morto; até que um deles, atormentado pelos terríveis sofrimentos da fome, saltava de repente soltando um bramido horripilante. Então, todos os outros viravam o focinho na sua direcção, tremiam e deixavam escapar um grito terrível, ameaçador e clamoroso.
Finalmente, a parte mais pequena da alcateia decidiu emigrar. Cedo, de manhã, deixaram os seus covis, juntaram-se e farejaram excitados e cheios de medo o ar gelado. Abalaram então, num trote rápido e regular. Os que ficaram ainda os perseguiam com olhos dilatados e vidra-dos, trotaram alguns passos atrás deles e voltaram devagar para as suas covas vazias.
Os emigrantes separaram-se ao meio-dia. Três deles dirigiram-se para o Jura suíço a leste, os outros rumaram ao sul. Os primeiros três eram animais belos e fortes, mas terrivelmente emagrecidos. A sua barriga clara estava chupada e era estreita como uma correia; no peito, as costelas sobressaíam deploravelmente, tinham as bocas secas e os olhos dilatados e desesperados. Os três conseguiram entrar no Jura profundo. No segundo dia, apresaram um carneiro, no terceiro, um cão e um potro e acabaram por ser furiosamente perseguidos, por todo o lado, pêlos camponeses. Na região, rica em aldeias e cidades, espalhou-se o terror e o medo perante os insólitos intrusos. Os trenós do correio foram armados, ninguém ia sem espingarda de uma aldeia à outra. Nesta região forasteira, após um saque tão bom, os três animais sentiam-se muito bem. mas ao mesmo tempo com medo; tornaram-se mais atrevidos do que alguma vez o tinham sido em casa em pleno dia, penetraram no estábulo de uma granja. Mugidos de vaca, o estalar de barreiras de madeira a lascar, o patear de cascos e uma respiração quente e sequiosa encheram o espaço apertado e quente. Mas desta vez houve intervenção humana. Dois deles foram abatidos, o pescoço de um foi atravessado por um tiro de espingarda, o outro foi chacinado com uni machado. O terceiro escapou e correu, até cair meio morto na neve. Era o mais novo e mais belo dos lobos, um animal orgulhoso de urna força poderosa e formas ágeis. Arfando, ficou deitado durante muito tempo. Frente aos seus olhos giravam círculos verme-lhos de sangue.
por vezes, soltava um gemido silvante e doloroso. Fora atingido nas costas por um golpe de machado. Mas recuperou e conseguiu levantar-se novamente. Só agora se apercebia da grande distância que correra. Não se viam homens nem casas em parte alguma. Mesmo à sua trente ficava uma montanha imponente e cheia de neve. Era o Chasseral. Decidiu torneá-lo. Como a sede o atormentava, comeu bocadinhos da crosta gelada e dura da superfície da neve.
Do outro lado da montanha deparou imediatamente com uma aldeia. O fim do dia estava a aproximar-se. Esperou num denso bosque de abetos. Então colou-se cautelosamente às cercas dos jardins, seguindo o cheiro dos estábulos quentes. Não havia ninguém na rua. Tímido e cobiçoso, pestanejava entre as casas. Soou um tiro. Esticou a cabeça e alongou o passo para correr, quando se ouviu o segundo tiro. Foi atingido. Um dos lados do seu abdómen esbran-quiçado estava manchado do sangue, que corria em gotas grossas e viscosas. Mesmo assim conseguiu escapar, em grandes saltos, e alcançar o bosque do outro lado da montanha. Ali esperou um momento, escutando, e ouviu vozes e passos vindos de duas direcções. Cheio de medo, olhou montanha acima. Era íngreme, arborizada e penosa para subir. Mas nào teve outra escolha. Com o fôlego arquejante, escalou a parede alcantilada, e, lá em baixo, ã volta da montanha, estendia-se uma confusão de injúrias, ordens e luzes de lanternas. Tremendo, o lobo ferido subiu o bosque de abetos meio escurecido, enquanto o sangue castanho corria lentamente do seu flanco.
O frio abrandara. A oeste, o céu estava enevoado e parecia prometer um nevão.
Finalmente, o animal esgotado alcançou o cume. Encontrava-se agora num grande campo de neve ligeiramente inclinado, perto de Mont Crossin, muito acima da aldeia de que escapara. Não sentia fome, mas sim a dor indistinta e persistente da sua ferida. O seu focinho descaído emitiu um latido baixinho e doentio e o seu coração bateu pesada e dolorosamente, sentindo passar sobre ele a mão da morte como um peso indescritível. Um abeto solitário de largos ramos atraiu-o; ali se sentou e fitou melancolicamente a noite cinzenta de neve. Passou meia hora. Caía agora uma luz vermelho-pálida sobre a neve, estranha e suave.
O lobo levantou-se, gemendo, e virou a sua bela cabeça para a luz. Era a Lua, gigante e vermelha de sangue, que nascia a sudeste e subia lentamente pelo horizonte enevoado. Há semanas que não era tão grande e vermelha. Tristemente, o olho do animal desfalecido fixou o disco baço da Lua, e, mais uma vez, um fraco uivo rompeu penosa e silenciosamente na noite. Seguiram-se então luzes e passos. Camponeses com sobretudos fortes, caçadores e rapazes jovens com gorros de peles e grosseiras polainas passavam pesadamente pela neve. Soaram gritos de júbilo. O lobo moribundo fora descoberto, dispararam dois tiros sobre ele e ambos falharam. Então viram que já estava prestes a morrer caíram-lhe em cima com paus e cacetes. Ele ja não sentiu nada.
De membros quebrados, carregaram-no montanha abaixo até St. Immer. Riam-se, gabavam-se, já se deliciavam com a aguardente e o café, cantavam e praguejavam. Ninguém reparou na beleza da floresta coberta de neve, nem no brilho do planalto, nem na Lua vermelha pendurada por cima do Chassera, cuja fraca luz se quebrava nos canos das espingardas, nos cristais de neve e nos olhos mortiços do lobo abatido.