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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Martin Fierro, José Hernandez


CANTO I
1.
Aqui me ponho a cantar
ao compasso da viola,
que o ser a quem desconsola
uma dor extraordinária,
como a ave solitária,
cantando é que se consola.
2.
Imploro aos santos do céu
que amparem meu pensamento;
peço que, neste momento
em que canto minha história,
me refresquem a memória
e aclarem o entendimento.
3.
Venham, santos milagrosos
cada um que me ajude:
minha língua se desgrude
e nada me turve a vista;
peço ao Senhor que me assista
em ocasião tão rude.
4.
Conheço muitos cantores
de famas bem construídas
e que, uma vez adquiridas,
não as podem sustentar:
como se antes de largar
já cansassem das partidas.
5.
Onde outro paisano passa,
Martim Fierro há de passar:
nada o fará recuar,
nem os fantasmas o espantam.
E, uma vez que todos cantam,
também eu quero cantar.
6.
Cantando quero morrer,
cantando me hão de enterrar,
e cantando hei de chegar
à porta"do Padre Eterno;
pois desde o ventre materno
vim ao mundo pra cantar.
7.
Não se prenda minha língua
e nem me falte a palavra:
minha glória o canto lavra
e, se me ponho a cantar,
cantando me hão de encontrar
ainda que o chão se abra.
8.
Estando no chão da várzea
a cantar um argumento,
como se soprasse o vento
faço tremerem os pastos;
com ouros, copas e bastos,
jogo ali meu pensamento.
9.
Cantor letrado não sou,
mas se me ponho a cantar
meu canto não tem final
e fico velho cantando:
os versos me vão brotando
qual água em manancial.
10.
Com a guitarra na mão,
ninguém me entorpece a rima
ou pode me olhar de cima;
e, se há no peito a canção,
eu faço gemer a prima,
faço chorar o bordão.
11.
Touro sou em meu rodeio,
touraço em rodeio alheio,
pois jamais tive receio:
se alguém o quiser provar,
saiam outros a cantar
e hão de ver quem vai ganhar.
12.
Não saio da rota, nem
que venham me atropelando;
com os brandos eu sou brando
e com os duros sou duro;
jamais em qualquer apuro
ninguém me viu vacilando.
13.
Por Cristo que, no perigo,
meu coração mais se atila:
a terra é várzea tranqüila
e não se assombre ninguém,
pois quem por homem se tem
faz pé firme e não vacila.
14.
Sou gaúcho, e entendam bem
como a minha língua explica:
pra mim o chão não se estica,
podia ser bem maior;
nem a víbora me pica,
nem me queima o rosto o sol.
15.
Nasci como nasce o peixe
na profundeza do mar;
ninguém me pode tirar
aquilo que Deus me deu
— o que tenho aqui de meu,
do mundo eu hei de levar.
16.
Minha glória é viver livre
como o pássaro no ar;
no chão não vou me aninhar,
onde há tanto que sofrer,
e ninguém me há de seguir
quando eu voltar a voar.
17.
No meu coração não cabe
quem me venha com querelas
como tantas aves belas
que saltam de rama em rama:
no treval estendo a cama
e me cobrem as estrelas.
18.
E saibam, quantos escutem
do meu sofrer o relato,
que não guerreio nem mato
senão por necessidade;
rolei na adversidade,
tangido pelo mau trato.
19.
E atentem na relação
de um gaúcho perseguido
que foi bom pai e marido
empenhado e diligente;
entretanto, muita gente
o considera um bandido.

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