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terça-feira, 14 de junho de 2011

H.L. MENCKEN

MEDITAÇÃO SOBRE A MEDITAÇÃO

A capacidade do homem para o pensamento abstrato, que parece faltar à
maioria dos outros mamíferos, sem dúvida conferiu-lhe seu atual domínio sobre a
superfície da Terra – um domínio disputado apenas por centenas de milhares de tipos
de insetos e organismos microscópicos. Este pensamento abstrato é o responsável por
sua sensação de superioridade e por que, sob esta sensação, existe uma certa medida
de realidade, pelo menos dentro dos de estreitos limites. Mas o que é freqüentemente
subestimado é o fato de que a capacidade de desempenhar um ato não é, de forma
alguma, sinônima de seu exercício salubre. É fácil observar que a maior parte do
pensamento do homem é estúpida, sem sentido e injuriosa a ele. Na realidade, de todos
os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclusões apropriadas nas
questões que afetam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um raro, no universo das idéias dos ratos, chegando a noções
tão ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia, a
danação infantil ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de fato, nunca se
dirige para o que é sólido e verdadeiro; prefere tudo que é especioso e falso. Se uma
grande nação moderna se confrontar com dois problemas conflitantes – um deles
baseado em argumentos prováveis e racionais, o outro disparando em direção ao erro
mais óbvio --, ela, quase invariavelmente, adotará este último. Isto de aplica à política,
que consiste inteiramente numa sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que
existem apenas como palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a
qualquer declaração lógica.
Acontece o mesmo na religião, que, como a poesia, não passa de uma partitura
orquestrada para negar as mais óbvias realidades. E é assim em quase todos os
campos do pensamento. As idéias que mais rapidamente conquistam a raça, levantam
os mais vibrantes entusiasmos e são defendidas com a maior tenacidade, são
justamente as mais insanas. Isto pode ser provado desde que o primeiro gorila

“avançado” vestiu cuecas, franziu a teste e saiu por aí dando conferências. E será
assim até que os poderes superiores, finalmente cansados desta farsa, exterminem a
raça com um gigantesco e definitivo coquetel de fogo, gases mortais e estreptococos.
Não surpreende que a imaginação do homem seja a culpada por esta singular
fraqueza. Tal imaginação, eu diria, foi o que lhe permitiu dar o seu primeiro salto
sobre seus colegas primatas. Permitiu-lhe visualizar uma condição de existência
melhor do que a que ele vinha experimentando e, pouco a pouco, tornou-o capaz de
retocar o quadro com uma certa realidade crua. E até hoje ele continua do mesmo
jeito. Quer dizer, ele pensa em qualquer coisa que gostaria de ser ou ter, algo bem
melhor do que Lee já é ou já tem, e, então, por um processo custoso e difícil de erros e
acertos, gradualmente chega ao que quer. Durante o processo, muitas vezes é
severamente punido por seu descontentamento com as sagradas ordens de deus. Rói
as unhas, coça o queixo, tropeça e cai – e, finalmente, o prêmio que ele tanto buscava
derrete em suas mãos. Mas, aos pouquinhos, ele segue em frente ou, na pior das
hipóteses, passa o bastão a seus herdeiros ou sucessores. Pouco a pouco, ele asfalta o
caminho para sua perna restante e conquista belos brinquedos para a mão que lhe
resta, com os quais brinca, e permite a seu olho ou ouvido sobrevivente desfrutar
aquela delícia.

Infelizmente, nunca se contenta com este processo lento e sanguinário. Está
sempre em busca de algo cada vez mais distante. Vive imaginando coisas além do
arco-íris. Este corpo de imagens constitui seu estoque de doces credulidades, fé e
confiança – em suma, seu fardo de erros. E este fardo de erros é o que distingue o
homem, mesmo acima de sua capacidade de chorar, seu talento para mentir, sua
excessiva hipocrisia e bazófia, de todas as outras ordens de mamíferos. O homem é o
caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é
crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas
artimanhas da natureza,mas também (e mais particularmente) por si mesmo – por seu
incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o
que é verdadeiro.
A capacidade para discernis a verdade essencial, de fato, é tão rara nos homens
quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas. O homem capaz desse
discernimento é de uma qualidade mais do que extraordinária – mesmo, talvez, que
seja profundamente mórbido. Demonstre uma nova verdade lastreada de qualquer
plausibilidade natural para uma multidão, e nem uma pessoa em 10 mil suspeitará de
sua existência, e nem uma pessoa em 100 mil irá adota-la sem feroz resistência. Todas
as verdades duradouras que se impuseram ao mundo no decorrer da História foram
mais combatidas do que varíola, e todo indivíduo que as recebeu bem e lutou pro elas
foi, absolutamente sem exceção, denunciado e punido como um inimigo da espécie.
Talvez o “absolutamente sem exceção” seja um exagero. Eu o substituiria por “cinco
ou seis exceções”. Mas quem seriam essas cinco ou seis exceções? Deixo a resposta a
cargo de vocês; eu próprio não conheço nenhuma.
Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos.
Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de palmas e torna-
se o dono da verdade; para as grandes massas, ele é o beau ideal da humanidade. Dê
um giro pelos últimos mil anos da História e você descobrirá que 90% dos ídolos
populares do mundo – não me refiro aos heróis de pequenas seitas, mas a ídolos
mundialmente populares – não passaram de mascates baratos denonsense. Tem sido

assim em política, religião e em qualquer outro departamento do pensamento
humano. Mesmo tal mascate já enfrentou alguma oposição, uma vez ou outra, de
críticos que o denunciaram como charlatão e o refutaram assim que ele abriu a boca.
Mas, ao lado de cada um deles, havia a titânica força da credulidade humana, e isto
bastava para destruir seus inimigos e estabelecer sua imortalidade.
1920

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