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domingo, 19 de junho de 2011

IVAN TURGUÊNIEV

O ENCONTRO

 

 












Um dia de outono, em meados de setembro, eu repousava num bosque de bétulas. O tempo estava in­certo: desde manhã, uma chuva fina alternava com um sol quente. O céu coberto de ligeiras nuvens brancas, clareava por momentos, e deixava entrever uma nesga de azul acariciador como um, belo olhar. Imóvel, eu era todo olhos e ouvidos. Por cima de mim as folhas mal se agitavam, e esse pequeno ruído bastaria para precisar a estação. Não era, com efeito, nem a palpitação álacre e risonha da primavera, nem o doce e longo murmúrio do verão, nem o balbucio tímido e frio do outono, mas uma espécie de gorjeio em surdina. Uma brisa ligeira alisava o cimo das árvores. A floresta molhada mudava a todo momento de aspecto, conforme o sol brilhava ou se escondia. Por vezes, ela se iluminava, e tudo então parecia de súbito sorrir: os troncos das bétulas esparsas ganhavam reflexos de cetim branco; as folhas caídas rebrilhavam como ouro rutilante; os altos penachos dos fetos, já cobertos dessa tinta côr de uva madura, que eles adquirem no outono, ofereciam aos olhos, por toda parte, a confusão transparente dos seus ramos entrela­çados. Depois, tudo se escurecia de novo, as cores vivas se amorteciam; as bétulas se tornavam de um branco pálido, desse branco de neve caída há pouco, que os mornos raios do sol de inverno ainda não tocaram; e sorrateira, furtiva, uma pequena chuva chilreante caía sobre o bosque. A folhagem ainda verde começava entretanto a amarelecer; aqui e ali uma folha nova já havia adquirido tons vermelhos ou acobreados; era pre­ciso vê-la flamejar, quando um raio de sol atravessava, matizando-a, a rede cerrada da ramagem lavada pelas gotas cintilantes. Nenhum pássaro se fazia ouvir: todos estavam abrigados e silenciosos; somente o abelharuco lançava com intermitência o seu grito argentino e zom-beteiro.

Antes de me deter nesse bosque de bétulas, eu tinha atravessado, em companhia do meu cão, uma mata de faias. Confesso não gostar muito dessa árvore, do seu tronco lilás claro e da sua folhagem verde-acinzentada, de aspecto metálico, que se eleva o mais alto possível e se abre nos ares como um leque palpitante; não posso suportar o contínuo balanço dessas feias folhas redondas, desajeitadamente presas aos seus caules intermináveis.. Ela só é bonita em certas tardes de verão, quando, ele-vando-se solitária por cima dos arbustos, se oferece aos raios abrasados do crepúsculo: brilha, então, e rumoreja sob a púrpura dourada que a inunda totalmente, das frondes às raízes. É bonita, também, quando, por um dia de vento sem nuvens, freme e sussurra sobre o fundo azul do céu, cada uma de suas folhas, arrebatadas por esse movimento, parecendo querer arrancar-se, levantar vôo e perder-se ao longe. Mas, em suma, não gosto dessa árvore: razão pela qual, deixando a sua sombra, tinha escolhido para descansar esse pequeno bosque de bétulas, e tinha-me instalado sob uma delas, cujos ramos muito baixos me podiam abrigar da chuva. Enquanto contem­plava o espetáculo que se oferecia ao meu olhar, o sono me envolveu, um sono doce e profundo, que só os caça­dores conhecem.
Não sei quanto tempo durou o meu sono; mas quando abri os olhos, todo o bosque estava inundado de sol; por toda parte, através das folhas palpitantes, o azul resplandecia; uma borrasca tinha afugentado as nuvens; o tempo ficara outra vez sereno; o ar apresentava essa frescura seca e singular que enche o coração de um sentimento de bem-estar e anuncia quase sempre uma bela noite depois de um dia chuvoso.
Ia-me levantar para tentar a sorte mais uma vez, quando "os meus olhos se detiveram sobre uma forma humana imóvel. Era uma jovem camponesa. Sentada a vinte passos de mim, a cabeça pensativamente inclinada, os braços estendidos sobre os joelhos, tinha, numa das mãos semifechadas, um grande ramalhete de flores cam-pestres; cada vez que ela respirava, o ramalhete se elevava docemente sobre o seu colo. Uma blusa muito branca, fechada no pescoço e nos punhos, caía em pregas curtas e suaves sobre o seu talhe. Uma dupla fileira de pérolas amarelas ornavam o seu busto. Era bonita. Os espessos cabelos louros, de um belo matiz cinzento, se separavam em duas grossas trancas, sob um estreito f ichu vermelho, que emoldurava uma fronte de marfim; o queimado dourado, característico das peles delicadas, se destacava no resto do rosto. Eu não conseguia ver-lhe os olhos, que ela conservava baixos, mas distinguia as sobrancelhas delicadas e finas, os longos cílios úmidos; o traço de uma lágrima brilhava ao sol sobre uma das faces e descia até os lábios pálidos. O nariz, um pouco forte, não enfeava o conjunto de seus traços, que eram muito agradáveis: a sua expressão sobretudo me atraía, de tal modo ela revelava doçura, simplicidade, tristeza ingênua, a tristeza de uma criança esmagada por um sofrimento que não chega a compreender. Visivelmente esperava alguém. Um ramo seco estalou no bosque. Ela levantou imediatamente a cabeça e olhou em redor: na sombra transparente, vi brilharem um instante os seus olhos de corça, puros e medrosos. Um longo momento, sem perder de vista o lugar de onde viera o ruído ela escutou: em seguida, voltou a cabeça suspirando, inclinou-se ainda mais e pôs-se lentamente a escolher as suas flores. Os olhos ficaram vermelhos, os lábios tremeram de cortar o coração, uma nova lágrima nasceu sob os grandes cílios, deixando na face um rastro brilhante. Longos minutos transcorreram; a pobre criança não se mexia: por vezes, agitava ansiosamente as mãos, escutava, escutava sempre. Algo mexeu de novo no bosque: ela estremeceu. O ruído se acentuou, se fêz ouvir bem próximo, enfim se percebeu claramente um passo curto e decidido. Ela se soergueu, parecendo intimidada; o seu olhar atento se iluminou de esperança. Saída do mato, uma figura de homem apareceu. Os olhos dela se tornaram fixos, o rosto enrubesceu, um sorriso de satisfação lhe desabrochou nos lábios; quis levantar-se, mas tornou a cair, empali-deceu, perdeu o jeito. Foi só quando ele chegou ao seu lado que ela pôde levantar um olhar temeroso e quase suplicante.
Do meu esconderijo, eu examinava o personagem com curiosidade: para dizer a verdade, êle me causou boa impressão. Devia ser o criado de quarto favorito de um jovem rico. A sua maneira de vestir revelava pretensões a bom gosto, a uma elegante displicência; trazia, abotoado até o pescoço, um paletó curto, côr de bronze, sem dúvida herança do patrão, uma pequena gravata rosa de pontas lilases, e um boné de veludo negro com galão de ouro, enterrado até os olhos. Impla­cável, o colarinho da camisa branca subia até as orelhas, ocultando-lhe as faces; os punhos engomados cobriam-lhe as mãos até os dedos, dedos vermelhos e disformes, ornados de anéis de ouro e prata, guarnecidos de miosótis em turquesas. A sua figura vermelha, sadia, insolente, era dessas que, segundo as minhas observações, exaspe­ram quase sempre os homens e — ai de nós! — agradam freqüentemente as mulheres. Êle se esforçava por dar aos seus traços vulgares uma expressão de desprezo e de tédio: franzia continuadamente os olhos cinzento-pálidos, já quase imperceptíveis, fazia caretas, abaixava os cantos da boca, fingia bocejar e, com uma falsa desenvoltura, retificava as ondas avermelhadas dos seus "caça-noivas" ou então torcia os raros fios louros que se eriçavam por cima de seus lábios carnudos: em resumo, "posava" odiosamente. Os seus manejos começaram desde que percebeu a jovem camponesa: aproximando-se dela, num andar descuidado, permaneceu de pé um momento, levan­tou os ombros, meteu as mãos nos bolsos do paletó e, depois de lhe ter lançado um olhar negligente, sentou-se no chão.
— Há muito tempo que estás aí? — perguntou-lhe com os olhos distraídos e distantes, bocejando e balan­çando uma das pernas.
A moça não encontrou logo forças para lhe res­ponder.
—     ‘Sim, há muito tempo — murmurou enfim, com uma voz indistinta.
—     Qual! (Tirou o boné, passou majestosamente a mão pela espessa cabeleira frisada a ferro, e que começava baixo na testa, lançou em torno um olhar cheio de dignidade e em seguida tornou a pôr o boné na sua preciosa cabeça.) Eu tinha-me esquecido com­pletamente. E depois, chove, além do mais. (Bocejou outra vez). Estou sobrecarregado de serviço, não consi­go fazer tudo… E o patrão ainda se zanga! Nós partimos amanhã…
—     Amanhã? — articulou a pobre moça com um olhar cheio de terror.
—     Sim amanhã… Vamos, vamos, eu te peço — acrescentou êle num tom aborrecido, vendo-a estreme­cer e abaixar a cabeça — eu te peço, Akulina, não chores, tu bem sabes que eu detesto isso. (Franziu o nariz chato). Senão vou-me embora imediatamente. Que bobagem, choramingar!
—     Não, não, eu não estou chorando — disse ela bem depressa, esforçando-se por engolir as lágrimas. — Então é amanhã que o senhor parte — recomeçou, depois de um momento de silêncio. — Só Deus sabe quando nos reveremos, Vítor Alexandrytch!
—     Reveremos, reveremos! Se não fôr no ano que vem, será mais tarde. Eu acho que o patrão tem a intenção de trabalhar em Petersburgo — acrescentou êle num tom negligente e algo fanhoso; a não ser que parta­mos para o estrangeiro.
—     O senhor me esquecerá, Vítor Alexandrytch — suspirou tristemente Akulina.
—     Mas não, por que haveria de esquecer? Eu não te esquecerei. Apenas, não sejas tola, obedece a teu pai.. . É claro que não te esquecerei.
Êle se estendeu e bocejou de novo.
—     Não se esqueça de mim, Vítor Alexandrytch — tornou ela com voz suplicante. — Eu o amei com todas as minhas forças, pelo senhor eu fiz tudo… Diz que obedeça a meu pai, mas como é que o senhor quer que eu faça isso?…
—     Como? — disse êle com voz cavernosa, estendido de costas, as mãos passadas sob a cabeça.
—     Mas seja sensato, Vítor Alexandrytch, o senhor bem sabe…
Ela se calou.
Vítor brincava com a corrente de aço do relógio.
— Tu não és tola, Akulina — disse êle enfim. Não digas bobagens, portanto. Eu quero o teu bem, compreendes? Sim, tu não és tola, não tens nada de bronca, é verdade; tua mãe também nem sempre o foi, o que não impede que tu não tenhas instrução alguma; é por isso que precisas escutar o que te dizem.
— Eu tenho medo, Vítor Alexandrytch!
—     Ora, que bobagem, minha querida, eis uma bela razão para se ter medo!… Que é que tens aí? — acrescentou êle voltando-se para ela. — Flores?
—     Sim, respondeu Akulina, com ar abatido… — Eu colhi tasnas — replicou ela animando-se. — É bom para os bezerros. E isto é cânhamo da água, bom para curar escrófulas. Veja que flor bonita. Nunca vi uma flor tão bonita assim. Aqui estão violetas e miosótis… Colhi isto para o senhor — ajuntou ela apanhando sob as flores amarelas da tasna, um pequeno ramalhete de violetas presas por um laço de relva. — O senhor as quer?
Vítor estendeu uma mão preguiçosa, tomou as flores, cheirou-as com indiferença e se pôs a virá-las entre os dedos, os olhos no céu* o ar digno e sonhador. Akulina o contemplava… e seu olhar triste estava cheio de ternura, de devoção, de submissão, de amor. Com medo de aborrecê-lo, não ousava chorar, mas os seus olhos lhe diziam adeus e se satisfaziam pela última vez; quanto a êle, sempre estendido como um sultão, aceitava a ado­ração com uma condescendência magnânima. Confesso que o seu rosto rubicundo, onde se lia, através de uma despreocupação afetada, o egoísmo satisfeito e fácil, me inspirava uma indignação profunda. Akulina estava deliciosa nesse instante. Toda a sua alma se revelava confiante e apaixonada, voltando-se para êle num impul­so de amor, enquanto êle. .. êle, tendo deixado cair sobre a relva as violetas e tirado do bolso um pedaço de vidro rodeado de bronze, se esforçava, em vão por fixá-lo ao ôljio; franzia inutilmente o sobrolho, contraía a face e mesmo o nariz; o objeto, porém, lhe caía sempre na mão.
— Que é isto? — perguntou Akulina estupefata.
— Uma luneta — respondeu êle cheio de impor­tância.
—     Para que serve?
—     Para se ver melhor.
—     Deixe-me experimentá-la.
Vítor lhe deu a luneta contra a vontade.
— Toma cuidado, não a quebres!
—     Não tenha medo. (Aproximou timidamente o vidro do olho). Não vejo nada — confessou com inge­nuidade.
—     Fecha o olho — respondeu êle com uma voz irritada de chefe.
Ela fechou o olho diante do qual estava o vidro.
— Não esse boba, o outro! — gritou Vítor; e, sem lhe dar tempo para corrigir o engano, tirou-lhe a luneta.
Akulina enrubesceu, riu nervosamente e se afastou.
—     Parece que isso não é feito para nós!
—     Eu o creio realmente!
—     Ah! Vítor Alexandrytch, que vai ser de mim sem o senhor — recomeçou ela de súbito.
Vítor limpou o vidro com a ponta do paletó e reco­locou-o no bolso.
— Sim, não há dúvida — dignou-se êle enfim a responder; — nos primeiros tempos isso te parecerá duro.
Deu-lhe uma palmada nas costas com ar protetor; ela tomou-lhe docemente a mão e beijou-a.
— É claro, tu és uma boa menina — continuou êle com um sorriso satisfeito — mas que se há de fazer? Julga tu mesma; meu patrão e eu não podemos ficar aqui eternamente; o inverno está para chegar; um inver­no no campo é insuportável, tu o sabes bem quanto eu. Em Petersburgo as coisas são diferentes. Lá há mara­vilhas que não serias capaz de imaginar, nem mesmo em sonhos, minha pobre pequena. Que casas! Que ruas! ‘ E a sociedade, a instrução… É extraordinário!
Akulina o escutava com avidez, os lábios entrea-bertos, como uma criança…
—     Aliás — acrescentou êle, virando-se sobre a relva — para que contar tudo isso ? Tu és perfeitamente inca­paz de compreender.
—     Por que razão, Vítor Adexanclrytch? Eu com­preendi, deixe disso, eu compreendi tudo.
— Vejam só!
Akulina baixou a cabeça.
—     Antes, o senhor não me falava assim, Vítor Alexandrytch — disse ela sem levantar os olhos.
—     Antes … antes … — grunhiu êle de mau humor.
Ambos se calaram.
—     Está na hora de partir — disse Vítor, apoiando-se sobre o cotovelo.
—     Espere ainda um pouco — suplicou Akulina.
—     Esperar que?
—     Espere! — repetiu ela.
Vítor se estendeu de novo e se pôs a assobiar. Akuli­na não tirava os olhos dele. Pude perceber que a sua emoção ia num crescendo; um ligeiro tremor lhe agitava os lábios, as faces pálidas se tornaram rosadas…
—     Vítor Alexandrytch — recomeçou ela enfim, com uma voz martelada — eu juro que o que está fazendo não é direito.
—     Que é que não é direito? — perguntou êle levan-tando-se um pouco, a cabeça voltada para ela, de sobrolho carregado.
—     Sim, não é direito, Vítor Alexandrytch. Podia perfeitamente dizer-me uma palavra gentil antes de me abandonar. Pobre abandonada que sou! Só uma peque­na palavra.
—     Que queres tu que eu te diga?
—     Devia sabê-lo melhor do que eu, Vítor Alexan­drytch. O senhor parte sem me dizer uma palavra… Que foi que eu fiz para merecer isso?
—     Como és engraçada! Que é que eu posso fazer?
—     Só uma pequena palavra!
—     É uma verdadeira lengalenga! — resmungou êle, levantando-se.
—     Não se zangue, Vítor Alexandrytch — apressou-se ela a dizer, retendo as lágrimas cóm dificuldade.
—     Eu não me zango, mas tu és uma boba … Eu não posso casar contigo, não é verdade? Então que é que tu queres? Vejamos que queres tu?
Êle a encarou fixamente como se esperasse uma resposta.
— Nada … eu não quero, nada — balbuciou ela mal ousando estender para êle as mãos trêmulas. — Mas se me dissesse uma única palavra gentil antes de me abandonar…
E começou a chorar.
—     Bom, já começa o choro — exclamou Vítor pu­xando o boné sobre os olhos.
—     Eu não quero nada — continuou ela, por entre soluços, escondendo o rosto nas mãos. — Mas que vai ser de mim agora, que vai ser de mim, pobre desgraçada? Casar-me-ão com um homem que eu não amo! Pobre de mim!
—     Continua, continua! — murmurou Vítor batendo com os pés no chão.
—     Se êle me dissesse ao menos uma palavrinha, antes de partir, só uma palavrinha… "Escuta, Akuli­na, eu…"
Mas os soluços impediram-na de continuar; ela se jogou de cara na relva e chorou, chorou desesperada-mente…
Todo o corpo se sacudia; tremores lhe agitavam a nuca. A sua dor, durante muito tempo contida, explodia enfim. Vítor ficou um momento a olhá-la, deu de ombros, afastou-se e partiu a grandes passos.
Alguns instantes transcorreram. Akulina serenou um pouco, levantou a cabeça, pôs-se de pé, passeou o olhar em torno, juntou as mãos; quis correr atrás dele, mas as pernas se recusaram, fazendo-a cair de joelhos… Não me contendo mais, precipitei-me para ela; mas apenas me percebeu, as forças lhe voltaram de súbito: deu um pequeno grito e desapareceu atrás das árvores, abandonando as flores espalhadas no chão.
Permaneci ali um momento; depois, reunindo as violetas, saí do bosque. O sol já estava baixo num céu pálido e puro: seus raios pareciam também pálidos, mais frios, esparzindo-se sem brilho num resplendor suave e transparente. Só meia hora nos separava da noite; no entanto, apenas alguns rubores indecisos anun­ciavam o crepúsculo. Através dos colmos amarelados, ressecados, um vento impetuoso chegava a mim, em raja­das; ao longo do bosque, pequenas folhas encarquilhadas fugiam à sua aproximação, turbilhonando pelo caminho. A parte da floresta que erguia a sua muralha em face da planície fremia inteiramente e brilhava com um res­plendor mortecido. Na relva avermelhada, no menor caule, por toda parte, reluziam inumeráveis filandras.


Detive-me… Uma tristeza me invadiu: através do sorriso álacre, ainda cheio de frescura, da natureza em declínio, percebia-se a angústia do inverno próximo. Num vôo desgracioso e pesado, um corvo circunspecto passou por cima de mim, abaixou a cabeça, para me lançar um olhar de lado, aprumou-se e perdeu-se croci-tando além da floresta. Numerosa revoada de pombos, que chegavam em linha reta dos arredores de uma eira, formou subitamente em coluna, depois se abateu e se dispersou prudentemente sobre o restôlho! prova certa do outono! O rolar de uma carroça vazia se fêz ouvir atrás de uma colina desnuda.
Voltei para casa. Mas a imagem da pobre Akulina me perseguiu durante muitos anos, e conservo ainda as suas violetas, que há muito tempo já murcharam.

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